O lagar que Teresa escolheu salvar

— Foste embora com uma mulher que me chamava velha pelas costas. Agora apareces aqui a dizer que tens saudades? — perguntou Teresa. — Quem te contou que querem transformar o lagar num hotel?

Rui pousou o capacete da mota no muro.

— Não vim por causa do dinheiro.

— Então não devias ter perguntado ao meu vizinho quanto valia o terreno.

Teresa tinha cinquenta e nove anos e trabalhava numa papelaria em Coimbra. Rui era fotógrafo de eventos e passava muitos fins de semana fora.

Durante trinta e dois anos, Teresa acreditou que a reforma dos dois seria passada numa pequena aldeia da serra da Lousã. A tia Amélia tinha-lhe deixado um antigo lagar de azeite, fechado desde os anos noventa.

Teresa queria restaurá-lo.

Rui não.

— Aquilo é pedra, pó e problemas.

— Também é a história da minha família.

— História não paga obras.

O assunto foi sendo adiado. Entretanto, Rui começou a fotografar imóveis para uma agência. Foi lá que conheceu Beatriz, uma consultora de trinta e quatro anos.

Ela usava vestidos elegantes, falava de viagens e fazia Rui sentir-se mais importante do que era.

Quando Teresa descobriu, ele não pediu desculpa.

— Com a Beatriz sinto que ainda tenho tempo para mudar de vida.

— Tiveste trinta anos para mudar a nossa.

Rui saiu de casa levando as máquinas fotográficas, os melhores copos de vinho e até a manta que a mãe de Teresa tinha feito.

Depois do divórcio, Teresa pediu demissão da papelaria e mudou-se para o lagar.

O edifício estava pior do que imaginava. Havia telhas partidas, ninhos no teto e uma figueira a crescer junto à parede.

O primo Joaquim ajudou-a a limpar. A jovem arquiteta Mariana preparou um projeto simples. Em vez de transformar o lugar num alojamento caro, Teresa criou uma cozinha comunitária e uma pequena sala onde os habitantes podiam vender compotas, mel, pão e artesanato.

Ela também recuperou a velha prensa de madeira.

Não para produzir grandes quantidades de azeite. Apenas para mostrar às crianças como os avós trabalhavam.

Aos domingos, o lagar enchia-se.

Um grupo cantava músicas antigas. As mulheres trocavam receitas. Os homens que antes passavam o dia sozinhos apareciam para arranjar cadeiras e contar histórias.

Um canal de televisão fez uma reportagem. Pouco depois, uma empresa turística apresentou uma proposta de compra. Queriam construir um hotel com piscina panorâmica.

A soma era muito alta.

Teresa não respondeu de imediato.

Rui apareceu três dias depois.

Beatriz tinha terminado a relação. A agência onde trabalhava fechara uma filial e Rui perdera vários contratos. Também devia dinheiro de uma mota nova e de viagens que não podia pagar.

— Eu sei que te magoei — disse.

— Sabes porque agora precisas de alguma coisa.

— Não é justo.

— Não foi justo chamares rotina à mulher que mantinha a tua vida inteira organizada.

Rui olhou para a antiga prensa.

— Isto ficou bonito. Podíamos continuar juntos o projeto.

— Tu não querias um projeto. Querias vendê-lo antes mesmo de eu começar.

— Agora é diferente. Há uma proposta séria.

Teresa sorriu.

— Já recusei.

Rui ficou imóvel.

— Recusaste quanto?

Ela repetiu o valor.

— Estás louca.

— Continuas exatamente igual. Sempre que escolho alguma coisa por mim, decides que perdi o juízo.

Teresa explicava que o lagar seria entregue a uma associação local. Ela continuaria a viver ali, mas a propriedade não poderia ser vendida para fins privados.

— Então não vais ficar rica?

— Não.

— E recusaste tudo por causa destas pessoas?

Na sala ao lado, Joaquim ensinava dois adolescentes a reparar uma cadeira. Mariana colocava flores numa jarra. Uma viúva chamada Emília levava broa acabada de fazer para a mesa.

— Estas pessoas ajudaram-me quando eu não tinha nada para lhes dar — respondeu Teresa.

Rui respirou fundo.

— Podias ao menos deixar-me ficar uns tempos.

— Há uma pensão na estrada principal.

— Depois de trinta e dois anos, mandas-me para uma pensão?

— Depois de trinta e dois anos, foste tu que escolheste sair de casa.

Ele pegou no capacete.

— A Beatriz dizia que tu eras fria.

Teresa abriu o portão.

— A Beatriz só conhecia a versão de mim que tu inventaste para não te sentires culpado.

Rui montou na mota, mas antes de partir perguntou:

— Nunca pensaste em dar-me outra oportunidade?

Teresa olhou para o lagar restaurado.

— Dei-te muitas. Só não te avisei que a última já tinha passado.

Quando o som da mota desapareceu, Emília chamou-a para provar a broa.

Teresa entrou e fechou o portão.

Não para se esconder.

Para proteger o lugar que finalmente escolhera salvar — incluindo a si própria.

 

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