Os pepinos gigantes da minha sogra

 

— Mariana, Rui, venham cá! — gritou a minha sogra da varanda. — Tenho pepinos para vocês. Da horta, sem químicos!

Em cima da mesa estava uma bacia enorme. Lá dentro, pepinos gigantes, amarelecidos, duros, daqueles que já passaram da idade de serem salada e começaram a parecer objetos de defesa pessoal.

— Mãe, outra vez? — suspirou Rui. — Nós somos dois.

— Dois também comem — respondeu Dona Teresa. — Isto é comida a sério, não essas coisas do supermercado.

Todos os verões era igual. Os pepinos pequenos iam para os frascos dela. Os bons tomates para a vizinha. Para nós sobravam os gigantes que ela não queria deitar fora. A isto chamava generosidade.

Durante anos arranjámos desculpas. Frigorífico cheio. Viagem. Dieta. Falta de tempo. Nada resultava.

Naquele domingo de calor, já sem paciência, disse:

— Obrigada, mas não vamos levar.

A minha sogra ficou imóvel.

— Não vão levar?

— Não.

— Uma pessoa oferece comida e ainda fazem cara feia.

Tentei manter a calma.

— Dona Teresa, para salada são duros. Para conserva são enormes. Por dentro têm sementes grandes. Vivemos num apartamento. Não temos animais.

Ela olhou-me de lado.

— Uma boa dona de casa aproveita tudo. Faz sopa, estufado, pataniscas. Só é preciso vontade.

Aquilo não era sobre comida. Era sobre eu ser, aos olhos dela, moderna demais, preguiçosa demais, pouco mulher.

Respondi antes de me arrepender:

— E uma boa hortelã apanha os pepinos a tempo, antes de ficarem assim.

Rui prendeu a respiração.

Dona Teresa corou.

— Rui! Ouviste a tua mulher?

Ele demorou um segundo. Depois disse:

— Ouvi. E ela tem razão.

Foi a primeira vez que ele não desapareceu dentro do silêncio.

— Mãe, tu dás-nos aquilo que não queres aproveitar. Depois a Mariana fica com a obrigação de inventar milagres na cozinha.

Dona Teresa sentou-se.

— Tenho pena de deitar fora.

— Eu entendo — disse eu. — Mas pena não é presente. Se perguntar, talvez levemos alguns. Se mandar levar, vira peso.

Fomos embora sem pepinos.

Na visita seguinte, havia uma cesta pequena: quatro pepinos jovens, salsa, tomates.

— Estes servem? — perguntou ela.

— Servem muito bem.

Desde então, há perguntas antes dos sacos. E respostas sem culpa.

Porque oferecer não é despejar o que sobra.

É dar sem humilhar quem recebe.

 

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