— Tens uma semana para sair. Vou trazer a minha nova mulher para este apartamento — disse Tiago.
Helena ficou imóvel no meio da sala.
O apartamento em Coimbra era dela. Dois quartos num prédio antigo, herdado da avó Amélia, com varanda estreita, portas de madeira pesada e uma mesa de cozinha onde a avó fazia sopa todos os domingos. Helena recebera-o antes do casamento. O nome dela estava nos documentos. Só o dela.
Tiago mudou-se depois da cerimónia. Vendeu o T1 que tinha longe do centro e disse que usaria o dinheiro para construírem uma vida melhor. Comprou uma mota, um televisor enorme, roupas caras e pagou dívidas que Helena só descobriu depois.
Trabalho fixo nunca durava. Ora era segurança, ora ajudante num armazém, ora empreendedor à procura de oportunidade. Helena trabalhava numa empresa de logística, pagava contas, compras, seguros, tudo. E ainda ouvia:
— Tu não percebes a pressão de um homem que quer vencer.
Nos últimos meses, Tiago ficou distante. Saía à noite, escondia o telemóvel, falava de reuniões. Helena quis acreditar até ver uma fotografia: um encontro de motas perto da Figueira da Foz. Tiago abraçado a uma mulher loira. Legenda: „Tiago e Sara, o casal da viagem.”
Nessa noite perguntou:
— Quem é a Sara?
Ele nem tentou negar.
— Alguém que acredita em mim.
— Eu acreditei. Só que também pagava a luz.
Tiago revirou os olhos.
— Não faças drama. A nossa história acabou. Tu arranjas onde ficar. Eu fico aqui com a Sara. É mais prático.
Helena respirou fundo.
— Prático para quem?
— Para todos. Tu és adulta.
Ela foi ao quarto, trouxe uma pasta e colocou-a na mesa.
— Então lê como adulto.
Ele abriu os documentos. Escritura. Herança. Data anterior ao casamento.
— Isto não muda tudo.
— Muda exatamente tudo.
No dia seguinte, a advogada dela ligou-lhe. Explicou que Tiago não tinha direito ao apartamento, nem a expulsá-la, nem a instalar outra pessoa ali.
Sara apareceu no sábado, com uma mala pequena.
— Ele disse que o apartamento era dele.
Helena olhou para ela sem raiva.
— Ele sempre gostou de viver em coisas que não eram dele. Casas, sonhos, dinheiro.
Sara foi-se embora.
Tiago saiu no terceiro dia, furioso. Disse que Helena era vingativa, que sem ele ficaria sozinha, que um dia pediria desculpa.
Ela abriu a porta.
— Leva também as tuas promessas. Ocupam mais espaço do que as caixas.
Depois chamou um serralheiro.
Quando a fechadura nova fez clique, Helena chorou. Não por ele. Pelos anos em que confundira amor com sustentar um homem que só crescia em discursos.
À noite, sentou-se na varanda da avó Amélia com uma chávena de chá.
O apartamento continuava antigo, pequeno, imperfeito.
Mas era seu.
E isso, naquela noite, parecia maior do que qualquer amor que tivesse pedido licença para destruir.
