O Segredo das Raízes Profundas

Irene e Sofia eram irmãs, mas tão diferentes quanto a água e o azeite. Moravam em casas geminadas num bairro antigo de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e dividiam o mesmo quintal dos fundos — um espaço generoso que o pai delas, já falecido, cultivara com amor por quarenta anos. Quando ele partiu, Irene, professora de botânica aposentada da UFRJ, assumiu os cuidados do jardim com a parcimônia de quem sempre viveu com um salário contado. Sofia, dona de uma butique no Leblon, via o jardim como vitrine viva e investia nele como se fosse uma extensão da loja.

A diferença se via em cada centímetro da terra. De um lado do muro baixo de pedra, as plantas de Sofia eram um espetáculo. Orquídeas carregadas de flores, roseiras com botões do tamanho de punhos fechados, folhagens tropicais que ela mandava buscar em Holambra. Rega automática programada, adubação com fertirrigação importada, fungicidas, podas semanais com um paisagista famoso que cobrava quinhentos reais a hora. As plantas cresciam a olhos vistos, exibicionistas, e todo domingo Sofia abria o jardim pras amigas da sociedade tomarem espumante entre as hortênsias.

Do outro lado, o pedaço de Irene era quase franciscano. Terra batida, canteiros delimitados com garrafas de cerveja enterradas, e plantas que pareciam miúdas demais, apertadas, pedindo desculpas por existirem. A irmã mais velha aguava de manhã cedo com um regador de plástico remendado com fita isolante, nunca mais que três medidas. Muitas vezes nem aguava, só virava a terra com um rastelo enferrujado e dizia baixinho: "Hoje vocês se viram." Sofia a chamava de sovina. Deixava cestas de adubo na varanda da irmã com bilhetinhos passivo-agressivos. Irene devolvia as cestas intactas, com um chocolate BIS como agradecimento.

Passaram-se dois anos assim. O jardim de Sofia engoliu a divisa, as trepadeiras dela avançaram sobre o muro feito um exército verde, e Irene assistia à invasão tomando seu café sem açúcar.

Veio então o verão mais quente em três décadas. Quarenta e dois graus no asfalto, sensação térmica de cinquenta. Os noticiários falavam em frente fria vinda da Argentina, choque de massas de ar, tempestade severa se formando no oceano. Às nove da noite de uma quinta-feira, a primeira rajada de vento arrancou a placa de "Bem-vindos" da casa de Sofia e a atirou contra o portão. Em quinze minutos, o céu de Santa Teresa se fechou como uma panela de pressão.

O temporal desabou com violência de juízo final. Vento de mais de cem quilômetros por hora, relâmpagos que iluminavam o quarto como flashes de fotógrafo, e uma chuva tão grossa que parecia catarata caindo do morro. As irmãs, cada uma em sua casa, ouviram o barulho das telhas voando e das plantas se estraçalhando. Irene rezou um terço. Sofia chorou agarrada ao travesseiro, porque sabia que lá fora seu dinheiro todo estava sendo arrancado da terra.

Às cinco da manhã, com o céu ainda cinzento e um silêncio esquisito pairando no ar, as duas saíram para o quintal quase ao mesmo tempo. Sofia abriu a porta da cozinha e levou as mãos à boca.

Onde antes ficava seu jardim, agora havia um campo de batalha. As roseiras arrancadas pela raiz jaziam de lado como corpos, as orquídeas estavam despedaçadas no chão, os vasos de cerâmica italiana reduzidos a cacos, e a terra preta importada escorrera toda pela calha, misturada à lama. Nenhuma planta restara de pé. Nenhuma flor. Só destruição e o cheiro acre de matéria orgânica morta.

Sofia girou o corpo devagar, derrotada, e então congelou. Do outro lado do muro, o jardim de Irene estava intocado. As plantinhas modestas balançavam tranquilas na brisa que ainda soprava fraco, as folhas lavadas brilhavam com a umidade, e uma alamanda amarela que a irmã cultivava há uma década, e que Sofia sempre achara mirradinha, abrira cinco flores durante a noite.

— Mas como, Irene? — a voz de Sofia saiu rouca, mais de incredulidade que de raiva. Ela apontou para o próprio terreno devastado e depois para as plantas da irmã. — Eu gastei uma fortuna com isso aqui. Eu trouxe especialista, eu comprei o melhor adubo, eu… eu olhava cada folha todo santo dia. As minhas eram muito mais fortes, você viu. Como é que as suas ficaram inteiras e as minhas morreram todas?

Irene tirou um galho partido do caminho e se sentou devagar no banco de cimento que o pai construíra. Tirou os chinelos. Sentiu a lama fria nos pés.

— Você lembra do que eu dava pras minhas plantas? — perguntou ela.

Sofia franziu a testa.

— Quase nada. Você mal regava aquilo.

— Isso. — Irene sorriu manso. — Eu dava água contada. O mínimo pra não morrerem de sede. Porque planta que recebe tudo na boca não precisa fazer esforço. A raiz fica preguiçosa, curta, espalhada na superfície, esperando a próxima rega automática. Aí chega o vento e arranca, porque ela não tem onde se segurar.

Apanhou um torrão de terra entre os dedos e o esfarelou.

— As minhas, coitadas, tiveram que se virar. Cada gota d'água que eu neguei, elas foram obrigadas a buscar lá no fundo. Mandaram raiz pra baixo, bem lá pra baixo, onde a terra é escura e firme, atrás de lençol freático. Foram atrás de sustento, e nessa busca fizeram uma âncora. Você não via, porque força de raiz ninguém vê. Tá debaixo da terra. Mas foi essa força que segurou elas a noite inteira enquanto o vento arrancava tudo que não tinha onde se agarrar.

Sofia se deixou cair no banco ao lado da irmã, os olhos vermelhos ainda grudados no próprio quintal destruído.

— E agora, Irene? O que eu faço com isso?

Irene olhou pra ruína da irmã e depois pras suas alamandas floridas. Levantou-se, foi até o seu lado do quintal e, com todo o cuidado, arrancou uma muda miúda de alamanda que crescia escondida perto do muro. Voltou e a colocou nas mãos de Sofia.

— Agora começa de novo, Sofia. Mas dessa vez com pouca água.

As duas ficaram sentadas no banco de cimento, com os pés sujos de lama e a muda de alamanda entre elas, enquanto o sol subia devagar atrás do morro e um sabiá-laranjeira, o primeiro depois da chuva, começava a cantar.

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Odissea
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