Cento e trinta reais por semana

Oitocentos gramas de ração por semana. Foi o que eu comecei a comprar depois que vi aquela gata magra no fundo do quintal. Eu moro sozinha numa casa com piso de tábua corrida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. No começo de junho, a noite prometia três graus. Eu tinha um aquecedor pequeno na cozinha, desses que a gente liga só quando a geada aperta. A gata apareceu junto ao portão, as costelas aparecendo por baixo do pelo curto. Ficou parada, me encarando. Saí com o resto do frango com arroz da janta. Ela correu. Meia hora depois, a vasilha estava vazia.

Dona Zeli, a vizinha do lado, deve ter visto a vasilha. Um dia escutei sem querer ela falando no celular junto à cerca. "Imagina, agora a Neide tá dando comida pra bicho de rua. Daqui a pouco a casa vira criadouro de pulga e rato." Eu estava atrás da parede da área de serviço, descascando cebola pra fazer molho. Até de noite minhas mãos ficaram com cheiro de cebola. Não falei nada. No outro dia comprei outro pacote de ração, de vinte e quatro reais, daquela própria pra gata prenha, porque notei que a bichinha já andava redonda.

A gata passou a vir todo dia. Eu botava a vasilha perto da porta da cozinha e ficava lá dentro, espiando pelo vidro embaçado. Ela comia apertado, o corpo encolhido, como se esperasse um chute a qualquer momento. Depois sumia pro matinho atrás do galpão. Dona Zeli vivia me dizendo pra eu parar com aquilo, que bicho de rua só traz dor de cabeça. Uma tarde ela falou assim, por cima da cerca: "Pode deixar que quando ela tiver filhote tu vai ver o tanto de bocas pra alimentar." Fechei a janela. Naquele dia fui no mercado e voltei com um pacote de oito quilos, cinquenta e nove reais. Me senti mais leve.

Em meados de julho, a gata sumiu. Eu deixava a vasilha toda noite, e de manhã a ração continuava lá, dura de frio. Fiquei pensando nela parindo sozinha na geada, debaixo de alguma telha ou no meio do mato molhado. Uma tarde calcei a galocha e fui até o capão nos fundos do terreno, chamando: "Pintada! Vem, Pintada!" O vento assobiava nos eucaliptos. Voltei pra casa com a barra da calça molhada e o nariz gelado. Dona Zeli me viu pelo portão. "Achou a tal gata?" Eu não respondi. Fiz um chá e fiquei sentada na beira da cama, com a xícara esfriando na mão.

Anteontem de manhã, ouvi um arranhado na porta dos fundos. Eram quase sete horas, o sereno ainda cobria a horta. Abri a porta. Era a Pintada. Em pé, magra, mas com o pelo mais brilhante. No meio dos dentes ela trazia um filhote minúsculo, cinza, do tamanho de um rato grande. Ela não correu. Passou por mim, entrou na cozinha, colocou o gatinho no tapete velho que fica perto do fogão e sentou ao lado. Fiquei imóvel, com a mão na maçaneta, o frio da manhã entrando pelas costas. Ela então se virou pra mim e miou curto, um miado de quem pede. Eu soube naquela hora que ela estava me entregando o filhote.

Ela saiu de novo. Fiquei ajoelhada no tapete, sem saber o que fazer com as mãos. O gatinho se mexia pouco, procurava o calor da mãe. Quarenta minutos depois, outro arranhado. Abri a porta. Ela trouxe o segundo filhote, mais escuro, e colocou do lado do primeiro. Depois deitou, e os dois começaram a procurar a barriga dela. A gata ronronava. Ronronava alto, um som que ecoava na cozinha inteira. Desde que a conheci, ela não se assustava com minha voz.

Saí pro pátio pra respirar. Encostada na cerca, dona Zeli observava a porta da cozinha aberta. "Tu deixou essa gata entrar na casa? Ela é do mato, vai te trazer doença." Fiquei parada, os braços cruzados pra segurar o tremor das mãos. Não falei. Voltei pra dentro. Deixei a porta encostada de propósito. Que ela visse.

Peguei o celular. Encontrei o site da agropecuária. Caminha aquecida, duas tigelas de inox, caixa de transporte, pacote de areia, ração pra gata amamentando. Deu tudo mil duzentos e vinte reais, com frete grátis pra quinta-feira. Já ia confirmar quando bateram na porta. Era a Zeli. Ela entrou sem eu chamar, como sempre fazia. Viu a gata deitada com os dois filhotes. "Neide, tu tá é maluca. Vai gastar tua aposentadoria com bicho de rua?" Virei o celular pra ela. A tela mostrava o pedido, o valor em cima, grande. "Tá vendo, Zeli? Mandei entregar na quinta. Caminha aquecida, ração, tudo. Pra ela não sair mais daqui." Ela baixou a cabeça, olhou pros gatinhos, depois me encarou. Não disse nada. Deu meia-volta e saiu, batendo o portão de ferro.

Na quinta-feira, a transportadora chegou às onze e meia. Assinei a entrega na prancheta e arrastei a caixa de papelão até a cozinha. Cortei a fita com a faca de pão. Dentro, a caminha cinza, macia, com um fio pro aquecedor. Coloquei no canto perto do fogão, no lugar exato onde a Pintada já dormia abraçada aos filhotes. Ela cheirou a caminha, subiu, ajeitou o corpo e deitou. Os dois gatinhos se enfiaram na barriga dela, um mordendo a orelha do outro. Eu me sentei no banco da mesa. Sobre a toalha xadrez, deixei a nota fiscal: R$ 1.220,00. Casa cheia.

Pela janela, vi dona Zeli passando na calçada. Ela olhou pra caixa de papelão rasgada no degrau da porta. Não parou. Eu não fui até a janela. Só virei a nota fiscal ao contrário e fiquei olhando os gatinhos.

Naquela noite, peguei o celular de novo. Ativei a entrega automática de ração: cinquenta e oito reais e noventa centavos por mês, quinze quilos. Depois fui pro quarto e deixei a porta da cozinha entreaberta. Queria escutar se a gata ia se mexer no meio da noite. Ela não se mexeu. Ronronou até alta madrugada. Eu acordei duas vezes e fiquei ouvindo aquele ronco baixo, como se tivesse um motorzinho novo dentro de casa.

De manhã, prendi na grade do portão uma plaquinha que eu mesma risquei com caneta permanente: "Atenção: aqui moram gatos." Ficou torta, mas firme. A Zeli passou por volta das dez e leu. Não falou nada. Só acelerou o passo pro ponto de ônibus.

Agora, quando sento na cozinha pra tomar meu café com pão caseiro, a Pintada sobe no meu colo. Os dois filhotes brigam pela tigela de ração. A casa, que antes tinha só o barulho da TV e o vento batendo na porta do quarto, ficou cheia de passos miúdos e miados. Eu conto os três pela manhã, antes de abrir a janela. E não estou mais contando quanto custa. Setenta e duas latas de ração úmida na despensa. Dois potes de areia limpa. Um aquecedor ligado no tomada da cozinha, sem medo do relógio de luz. E um ninho quente no chão de tábua corrida.

Hoje eu acordei e fiquei deitada escutando. Um filhote miou, a mãe respondeu. A coberta estava pesada, o frio lá fora. Deixei o café passar, bem forte, e fiquei olhando a plaquinha torta no portão pela janela da sala. Agora era só ligar o rádio no programa das manhãs e passar a margarina no pão. A vida tinha ganhado outro barulho. E eu não ia mais abrir mão disso por ninguém.

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Odissea
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