O Que Ela Ouviu a Filha Dizer no Telefone

Todo santo dia a mesma coisa. Sete da manhã e lá estava ela na porta do meu apartamento, com as crianças e aquela cara de quem já acordou cansada. Minha filha me entregava os netos como quem despacha uma encomenda, com um beijo rápido e a promessa de voltar “lá pelas oito”. Só que oito da noite, e eu já sabia que na prática seria bem mais tarde. Aconteceu durante dois anos. Eu achava que era assim que funcionava. Que meu papel de avó era exatamente este: estar disponível, ajudar, segurar as pontas. Até que ouvi uma conversa ao telefone e entendi o que realmente pensavam das minhas horas ali.

Meu nome é Rosa, tenho setenta e um anos e moro em um apartamento pequeno em Niterói, num bairro onde vivi boa parte da vida. Depois que enviuvei, aprendi a dançar com o silêncio. Ele foi duro no começo, mas depois virou meu companheiro. Planejei uma velhice com caminhadas na praia, alongamento para a coluna que sempre me atormentou, quem sabe um café com as amigas no meio da tarde. Mas aí minha filha Renata teve o segundo bebê, e tudo virou de cabeça para baixo.

Às seis e cinquenta o interfone tocava. Era Renata, já embaixo, com o Miguel de sete anos e a pequena Alice, de três. Miguel com mochila das costas, uniforme da escola. Alice muitas vezes ainda de pijama, abraçada num coelhinho de pelúcia, sonolenta.

— Mãe, tô atrasada. Preciso bater o ponto às oito. Te amo, beijo.

Dois beijos estalados no ar e pronto. Dali em diante, o dia era meu. Quer dizer, deles.

Café da manhã. Trocar roupa. Lavar o rosto. Procurar o tênis que sumiu. Arrumar a lancheira. Levar Miguel na escola. A Alice ficava o resto do dia comigo. Almoço, soneca da tarde, birra porque a meia está “apertada”, desenho animado por meia hora só para eu conseguir lavar a louça. Depois buscar o Miguel. Lanche. Dever de casa. Banho. Janta. Quando Renata finalmente chegava, muitas vezes passava das oito e meia. As crianças já estavam de banho tomado, jantadas, mochilas prontas para o dia seguinte. Treze horas. Às vezes catorze. Eu não reclamava. Pensava comigo: “Ela tá nova, tá difícil. Tem conta, tem patrão, o marido também trabalha, a creche é uma fortuna”. Eu sou avó. Se não for para ajudar os meus, para que serve uma avó? Só que o meu corpo foi cobrando. As dores na coluna aumentaram. Parei de ir ao alongamento porque o horário coincidia com a soneca da Alice ou com a saída do Miguel. As consultas médicas ficaram para nunca mais. Minha amiga Lourdes desistiu de me chamar para o café de quinta. “Você nunca pode”, ela dizia, sem mágoa na voz, só com um cansaço solidário. Eu não me pertencia mais. Abria os olhos às seis da manhã e fechava depois das dez, exausta. E ainda me sentia egoísta por me sentir cansada. Até aquela noite.

Faz três semanas. Renata chegou mais cedo do que o normal — coisa de quinze para as oito. Eu estava na cozinha, esfregando umas panelas depois da janta das crianças, com a coluna latejando. A porta do apartamento estava entreaberta e o corredor do prédio faz um eco danado. Ela vinha subindo pela escada, falando com a amiga Geisa no viva-voz do celular. Não dava para não ouvir.

— Amiga, é exaustivo, mas vou te falar: minha mãe não faz nada o dia inteiro, entendeu? Para ela é até bom, ocupa a cabeça. Ficar em casa sozinha sem ter o que fazer deixa qualquer um maluco.

Ela riu. Não foi um riso de maldade. Ao contrário. Foi um riso leve, desse jeito que a gente fala do tempo, de algo absolutamente trivial e inquestionável.

Eu congelei. As mãos dentro d’água morna, uma bucha na palma. “Não faz nada o dia inteiro”. As minhas pernas inchadas de tanto subir escada com Alice no colo para ela não acordar o irmão. A tarde que passei ensinando o Miguel a fazer conta de subtração com tampinhas de garrafa porque ele chorava dizendo que era burro. O almoço que eu apressava para conseguir sentar cinco minutos e não conseguia. As aulas de pilates que cancelei três vezes seguidas. A consulta com o reumatologista que eu remarcava havia cinco meses. Aquilo era “nada”?

Renata entrou na cozinha, jogou a bolsa numa cadeira e abriu a geladeira. — Oi, mãe. Como eles foram hoje? Aprontaram muito? Eu sequei as mãos devagar. Me virei. — Eu ouvi o que você falou para Geisa. Ela fechou a geladeira e me olhou, meio sem entender. — O quê? — Que eu não faço nada o dia inteiro. Que é bom para mim ter com o que me ocupar. O rosto dela se desmontou numa vermelhidão instantânea. — Mãe, pelo amor de Deus, eu não quis dizer isso. Foi um jeito de falar. Você interpretou mal. — Sabe qual é o problema, filha? Você falou isso com ela naturalmente. Quando não tinha plateia. Quando não precisava medir palavra. Saiu porque é o que você realmente acha. Ela passou a mão nos olhos. — A senhora tá cansada, eu entendo. Também estou. Não precisa fazer disso uma guerra. — Dois anos, Renata. Dois anos eu vivo no seu relógio. Cada minuto do meu dia é no seu ritmo. Não me sobra tempo para cuidar da minha coluna, que dói toda noite. Não sobra tempo para ver uma amiga. Eu como em pé, Renata. Em pé. E quando deito, só quero chorar de cansaço. Isso é não fazer nada? Eu amo essas crianças. Mas amor não anula a exaustão. Ela ficou parada. A boca levemente aberta, os olhos brilhando. Depois respirou fundo, pegou a bolsa e as crianças. — Vou embora. A gente conversa outro dia. Você está muito nervosa. Três semanas se passaram.

As crianças continuaram vindo. Eu jamais as abandonaria. O Miguel e a Alice não têm nada a ver com isso. O abraço do Miguel na minha cintura de manhã e o cheirinho do cabelo da Alice recém-acordada são das melhores coisas que eu tenho. Mas sentei com a Renata no domingo, num café aqui perto de casa, e fui clara: duas vezes por semana, as crianças ficam com ela. Segunda e quinta, dias fixos, sem barganha. “Vai se virar? Vai. Eu me virei sozinha a vida inteira.” Ela me olhou com um ressentimento morno, daqueles que não queimam, mas ficam latejando. Ficou de responder, me deixou falando sozinha por dias. Mas na manhã seguinte ao café o interfone não tocou às seis e cinquenta. Eram sete e quinze quando a ligação veio. — Mãe, desculpa a demora. Tive que acordar mais cedo, preparar as coisas… — a voz dela estava diferente, um fio mais baixa. — Tudo bem, filha. — Olha, eu… sobre aquilo que eu disse para a Geisa. A senhora tem razão. Fui uma idiota. O silêncio na linha durou uns três segundos longos. — Eu só fui entender mesmo quando o Miguel derrubou o leite no tapete e a Alice resolveu chorar porque a blusa da Elsa tava suja — ela continuou. — Eu olhei pro relógio e ainda era sete e dez da manhã. E eu já queria sumir. Pensei em quantas vezes a senhora fez isso sozinha. Sem ninguém por perto. Eu engoli em seco. — Tá vendo? Chama-se cansaço. Ele existe. — Tá. Segunda e quinta. Mas a senhora me ajuda na sexta? — Fechado.

Aos poucos, a frieira entre nós foi descongelando. Domingo passado, Renata veio almoçar em casa. Fez questão de trazer uma torta de limão — ela nunca faz torta de limão. Eu estava sentada na poltrona, com gelo na lombar. O Miguel se aproximou e se jogou no meu colo. — Vó, por que você e a mamãe não riem mais juntas? Eu olhei para a Renata, que estava encostada no batente da porta, segurando um prato. Ela mordeu o lábio. Eu abracei o menino e respondi baixinho: — Às vezes os grandes se esquecem de rir. Mas a vovó vai lembrar. E a mamãe também. Ela se aproximou, colocou a torta na mesa e bagunçou o cabelo do Miguel. Não disse nada. Mas os olhos dela estavam marejados. E naquele instante, a rachadura na parede que havia entre nós ganhou sua primeira camada de massa. Não sarou. Mas parou de aumentar. Na segunda-feira seguinte, o interfone não tocou. Acordei com a luz da manhã entrando pelo vão da cortina. Fiquei ali, sentindo o silêncio macio da casa, os lençóis mornos. Fiz um café preto bem forte, peguei uma xícara grande e fui para a varanda. O sol batia no mar de Icaraí. Lá longe as ondas brancas iam e vinham. Coloquei o alongamento em dia ali mesmo, devagar, respirando fundo, ouvindo o estalo manso das minhas juntas. Quando o telefone vibrou, era mensagem da Renata. “Miguel pediu para te dar bom dia. Ele falou que segunda que vem quer acordar aí. Não aguenta mais meu cabelo de manhã.”

Eu ri. Guardei o celular no bolso do roupão e tomei mais um gole do café. O vento balançou as samambaias na mureta e eu fechei os olhos. Durante dois anos, a única coisa que eu tinha esquecido de fazer era aquilo: simplesmente não fazer nada. E estar bem com isso.

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Odissea
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