O Cheiro do Queijo Queimado

Mauro parou o carro naquela manhã de dezembro, o sol de Minas já castigando o asfalto às sete e meia. Eu estava podando a buganvília perto do portão quando vi a mão dele enfiar um saco plástico dentro da minha lixeira. Preta, com rodinhas, que eu deixava sempre do lado de fora porque o caminhão passava antes das oito. A dele, verde, três passos adiante. Não era a primeira vez.

— De novo, Mauro?

Ele nem me olhou.

— Não enche, Cláudio. O lixeiro leva tudo junto.

O saco bateu no fundo vazio e fez um estalo molhado. Cocô de cachorro. O labrador dele, Thor, um animal de quarenta quilos, produzia aquilo em escala industrial. Eu limpava a lixeira com água sanitária a cada dois dias, mas na semana anterior o cheiro tinha empesteado a garagem inteira. Minha sogra, que estava na sala assistindo à novela das seis, perguntou se tinha bicho morto no telhado.

Eu respirei. Meu sangue esquentou, mas eu não fiz nada. Só guardei a tesoura de poda e entrei. Dona Fátima, a sogra, tinha compressa nos joelhos e ia fazer setenta e quatro anos no sábado seguinte. Eu morava na casa dela desde que meu casamento acabou, três anos atrás. Ela me tratava como filho, mas a relação com os vizinhos era minha responsabilidade. E o Mauro estava me tirando do sério.

Naquele calor de rachar, o fedor grudava na tinta do muro. Eu tentei conversar duas vezes. Na primeira, ele disse que a lixeira dele estava cheia demais. Na segunda, quis saber se eu achava que a rua era minha. Na terceira, eu só juntei os sacos e fui guardando.

Porque eu estava esperando.

A filha do Mauro ia fazer quinze anos. Festa de debutante, com toldo branco alugado, churrasco e DJ. Eu via os preparativos da janela do quartinho dos fundos. Seiscentos reais de carne, pelo que o açougueiro comentou na padaria. Bolo fake de três andares. Uns quarenta convidados. Dona Fátima até recebeu convite, mas não ia.

No dia da festa, o calor bateu trinta e seis graus em Ouro Preto. As irmãs do Mauro chegaram cedo, com vestidos claros e sandálias de salto, se abanando com leques de igreja. Eu escutava a movimentação, o som da carne caindo na grelha, o gelo sendo jogado no cooler. O cheiro de picanha subia pelo muro e se misturava com o perfume doce de dama-da-noite. A tarde parecia um domingo de paz.

Eu subi no telhado às três e meia. A escada de alumínio, comprida, estava encostada no beiral desde a semana anterior, quando eu limpara as calhas. Trouxe os sacos um por um. Onze, ou talvez doze — perdi a conta quando o cheiro começou a ficar forte demais até para mim. Eu usava luva de borracha e máscara cirúrgica que sobrara da pandemia. Um por um, os sacos foram entrando pela calha que corria rente ao muro do Mauro. Eu os ajeitei com cuidado, com um pedaço de ripa, até que ficassem bem acima da área onde o toldo branco filtrava a luz do sol poente.

O DJ estava testando o som. "Amor de verdade", do Gusttavo Lima, batia nas paredes.

Eu desci. Lavei as mãos com detergente de coco. Troquei de camisa. Dona Fátima me ofereceu café.

— Você tá muito quieto, Cláudio.

— Tô nada.

Cinco e meia. A festa pegava ritmo. Eu sentei no banco do quintal, debaixo do abacateiro, de onde dava para ver o topo do toldo. Passei uns quinze minutos lá, só esperando. As gotas de suor grudavam a camisa nas costas. O ventilador velho girava atrás de mim, dentro da cozinha.

Quando a música deu uma pausa — era o momento dos parabéns —, eu soube que era a hora.

Subi na escada de novo. Peguei o balde com água que eu tinha deixado preparado e despejei nas calhas. Um fio d'água marrom escorreu pela beirada e pingou no toldo. Depois outro. Depois um filete que começou a respingar forte.

O primeiro saco estourou na beirada da mesa de doces. Um estouro seco, de plástico fino contra o ferro da estrutura. Depois o segundo, exatamente em cima do centro de frios. Depois o terceiro, que bateu na borda da grelha e abriu de vez, espalhando o conteúdo escuro pela carne que ainda assava.

O cheiro deve ter subido antes do barulho. Porque eu vi as pessoas começarem a tossir antes de entenderem o que era. Uma senhora de branco levantou e derrubou a cadeira. Outro convidado correu para o canto do quintal, com a mão na boca. Alguém gritou: "Meu Deus, o que é isso?"

Eu estava do outro lado do muro, com as duas mãos apoiadas na brita do telhado, olhando por cima da divisa.

Mauro rodava no meio do quintal como barata tonta. Olhava para cima, para os lados, para o toldo manchado de uma pasta escura que descia pelas bordas. Uma das irmãs dele, a mais nova, apontou para a calha. Todos os olhos foram para a beirada do telhado, onde ainda pingava um líquido suspeito.

Eu esperei ele me ver. Quando me viu, o rosto dele mudou na hora.

— Cláudio! Que porra é essa?

Falei baixo, mas deu para ouvir:

— É a sua porra, Mauro. Toda ela.

Meio segundo de silêncio. O ventilador da cozinha deu uma engasgada.

— Cê tá louco? Na festa da minha filha?

— Eu pedi. Três vezes. Cê disse que o lixeiro levava tudo junto.

Ele ficou roxo. O pessoal da festa já estava saindo pelo portão lateral, as mulheres com os sapatos na mão, os homens coçando a cabeça. O DJ abaixou o som até desligar.

A menina, a aniversariante, chorava perto do bolo. O vestido cor de rosa, longo, tinha uma mancha na barra. A mãe tentava limpar com um guardanapo, mas o cheiro subiu forte de novo e ela desistiu. A garota saiu correndo para dentro de casa.

Eu não me orgulhei daquilo na hora. Mas também não me arrependi. Fiquei olhando o Mauro recolher as sobras da carne estragada com uma pá de lixo.

A irmã mais velha dele veio até o muro. Com o rosto sério, mas sem gritar, me perguntou:

— Foi você mesmo que fez isso?

— Fui.

Ela ficou me olhando uns cinco segundos. Depois perguntou baixinho:

— Ele fazia isso há muito tempo?

— Quatro meses todo santo dia.

Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse rezando. Quando abriu, virou para o irmão e disse uma frase que eu não esqueço:

— Cê não tem vergonha, Mauro?

Mauro não respondeu. Foi aí que ele entendeu. Ou pareceu entender. Deixou a pá no chão e veio até o muro, com passo lento, a camisa manchada de molho de churrasco.

— Cê podia ter falado de outro jeito.

— Eu falei. Cê riu.

E foi isso. Ficamos os dois ali, um de cada lado do muro de tijolo aparente, enquanto no quintal dele a festa morta federava a cocô, picanha queimada e constrangimento.

No dia seguinte, um domingo, o caminhão de lixo passou pontualmente às oito. Mauro desceu a lixeira dele — a verde — e eu a minha — a preta —, cada um do seu lado da calçada. Ele não olhou para mim. Eu também não. Mas a lixeira dele estava cheia. E a minha, só com a minha própria porcaria.

Uma semana depois, Dona Fátima recebeu uma orquídea phalaenopsis com um bilhete: "Desculpa o transtorno. Mauro."

Ela pôs a planta na varanda e regava com água de arroz toda terça. Um mês depois floriu.

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