A gota que transbordou

Dona Célia examinou a borda do prato contra a luz do lustre e só então o colocou de volta no aparador, com um suspiro de quem carrega o mundo nas costas.

— Não me leve a mal, Larissa, mas essa casa… sei lá, parece cenário de revista, mas não tem alma. Tudo muito arrumadinho, sem cheiro de família.

Eduardo ajustou o colarinho, serviu-se de mais uma dose de cachaça artesanal e me lançou aquele gesto de “deixa pra lá”.

— Mãe só quer ajudar. Não é, mãe? A Lari às vezes é sensível demais. Relaxa, amor, vai buscar mais farofa.

Do fogão vinha o vapor da moqueca de camarão que eu passara a tarde inteira refazendo, porque a primeira versão ficou com dendê demais e ninguém avisou que o novo chefe do Eduardo evitava comida pesada. A mesa estava posta com toalha de linho, copos de cristal e um arranjo de helicônias que eu cortei no sítio da minha tia. Tudo para mostrar que a esposa de um futuro gerente de operações sabia receber.

O jantar seria decisivo para a promoção do Eduardo. O chefe, Seu Almeida, um engenheiro de fala mansa e terno bem cortado, viera com dois analistas da filial para fechar o novo contrato de logística. Eduardo queria exalar solidez. Eu era peça da engrenagem.

Aos poucos, os convidados avançavam nos pratos e nos elogios.

— Esposa prendada, Eduardo. Hoje em dia ninguém mais se dá ao trabalho de fazer uma moqueca em casa. Isso é raridade — disse o chefe, com um aceno quase solene na minha direção.

O sorriso de Eduardo congelou por um triz. Ele não suportava dividir palco. Precisava recolocar o holofote sobre si e, de preferência, me empurrar para um canto sombreado. Sempre foi assim: cada conquista minha virava material para ele brilhar como salvador.

Recostou-se na cadeira, girou o copo entre os dedos e estalou a língua.

— É verdade, Seu Almeida. A Larissa se esforça. Eu praticamente resgatei essa moça. Quando a conheci, ela não tinha ideia de como se portar à mesa. Acredita que na infância ela pintava os buracos dos sapatos com caneta marcador preto?

A tal história, que eu um dia confidenciei na penumbra do quarto depois de uma briga boba, estava agora escancarada sobre a mesa, como um pedaço de carne crua. Eu vestia os sapatos que tinham sido da minha prima mais velha. Sola gasta, bico quase abrindo. Toda semana eu passava marcador nos rasgos para disfarçar a necessidade, porque na escola choviam piadas com quem ia de chinelo furado. Numa tarde de chuva, a tinta escorreu pelas costuras e eu fiquei descalça no pátio, escondendo o pé na mochila, enquanto a supervisora berrava que eu estava violando o uniforme.

Minha mãe costurava bolsas de retalho até de madrugada para pagar a prestação de um apartamento minúsculo no Campo Limpo. Eu nunca me envergonhei dela. Mas doer, doía. E Eduardo pegara aquela ferida, a confissão mais frágil que eu já fizera a outro ser humano, e a transformava em vinagrete para temperar a própria vaidade.

Os colegas do escritório trocaram um pigarro e se afundaram nas cadeiras. Seu Almeida não riu. Pousou os talheres e ficou imóvel.

Encostei a faca na beirada do prato. O metal fez um clique seco no tecido.

— Engraçado você contar essa história, Eduardo — eu disse, num tom tão baixo que a sala toda se contraiu. — Porque ela diz muito mais sobre você do que sobre mim.

— Ai, Lari, para com isso… a gente está entre gente de confiança — ele tentou desfazer, mas a voz saiu apressada, e a testa já pegava um brilho de suor.

Puxei a aliança do dedo. Ela deslizou sem resistência, porque Eduardo insistira que o modelo mais largo era “mais seguro” e eu nunca tive voz para escolher nem o próprio anel. A pequena argola de ouro caiu ao lado do cálice dele, rodopiando antes de parar.

— Eu pintava os sapatos com marcador porque estava tentando salvar o que me restava de dignidade. Você acabou de descartar a sua de graça. Na frente dos seus pares. Para arrancar uma risada barata.

Eduardo ergueu-se quase derrubando a cadeira. A pele do pescoço manchou-se de vinho, igualzinho à mãe quando algo a desagradava.

— Senta, Larissa! Isso é ridículo. Você não vai fazer escândalo aqui.

— O escândalo já está feito. Eu só estou de saída.

Peguei o casaco no cabideiro de ferro que eu mesma pintei de verde-musgo, a mochila com notebook e a pasta de documentos que deixei pronta no vão da estante desde quarta-feira. Intuição talvez. Cosia aquela mala mental há meses.

Na sala, o chefe Almeida quebrou a imobilidade. Apanhou o guardanapo, dobrou-o com exatidão e falou sem pressa, encarando Eduardo.

— Quem expõe a família desse jeito não tem estofo para negócio sério. A gente encerra por aqui.

A porta do elevador se fechou atrás de mim antes que Eduardo conseguisse sair do apartamento. Lá embaixo, a garoa fina do bairro de Pinheiros lambia as calçadas. Chamei um carro pelo aplicativo e mandei o endereço da minha mãe em Interlagos. O motorista me ofereceu uma bala de gengibre e não fez pergunta nenhuma. A corrida deu 38 reais. Paguei com o meu cartão.

Duas semanas depois, aluguei uma quitinete na Aclimação. O prédio tinha um velho piso de taco e cheiro de café coado nas escadas. À noite, eu ouvia o miado do gato da vizinha e o zum-zum do metrô passando longe. Ninguém media o tamanho das fatias de bolo. Ninguém me chamava de ingrata por querer dormir com a janela fechada.

Eduardo mandou mensagens, áudios, me acusou de ter estragado a carreira dele. A dona Célia ligou para minha mãe dizendo que uma mulher de verdade não deserta do lar por “bobagem”. Minha mãe respondeu: “A bobagem doía há tempo, dona Célia. A senhora só não viu porque nunca perguntou.”

Num fim de tarde, debruçada no parapeito da quitinete, eu tomava chá mate gelado e via as luzes do centro acenderem devagar. Peguei a velha caneta marcador que ainda andava no fundo do estojo, fiz um risco grosso na sola de um tênis novo, só de brincadeira. Depois fechei a tampa e joguei o estojo no lixo.

A cidade pulsava lá fora. O apartamento era pequeno, as contas eram justas, mas pela primeira vez em anos eu sentia que o ar que entrava pela janela era meu. Com os fios soltos que sobraram daquele jantar, eu não remendava mais orgulho de marido nenhum. Nem pintava mais dores para parecerem inteiras.

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Odissea
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