A conta que nunca chegava

Pedro fechou o notebook com mais força do que devia. Na tela, antes de apagar, ainda brilhavam os números da planilha — oito mil e quatrocentos reais nos últimos três meses. Só para a mãe. Fora o IPTU atrasado do apartamento dela, a conta da veterinária, o mercado da semana.

— De novo, dona Mariza? — Carla largou a bolsa na cadeira e foi direto abrir a geladeira. Pegou a jarra de suco de caju, encheu um copo até a borda e bebeu metade, ainda de costas.

— Hoje foi a Lola. Ração especial. Disse que a cadela está perdendo pelo e o veterinário receitou uma de trezentos e vinte reais o pacote.

— Trezentos e vinte.

— Isso. Vence amanhã a promoção na pet shop. Ela pediu pra eu fazer o Pix até as seis.

Carla não falou nada. Pousou o copo na pia, molhou as mãos, passou no rosto. O rímel borrou um pouco no canto do olho, mas ela nem se importou. Ficou ali, encostada na bancada de granito manchado — a que Pedro vivia dizendo que ia trocar e nunca trocava.

O apartamento deles ficava em Santa Efigênia, um terceiro andar com varanda minúscula onde mal cabiam duas cadeiras de plástico. Compraram fazia quatro anos, na planta, com o décimo terceiro dos dois e um empréstimo que ainda comia mil e duzentos reais todo mês. Quarenta e oito metros quadrados. Sala, quarto, cozinha apertada. O suficiente para dois. Três, se o terceiro fosse um gato.

— Pedro.

Ele já sabia o que vinha. O tom de voz da Carla — aquele, o de quem vai dizer algo que ensaiou sozinha no carro enquanto voltava do trabalho —, era o mesmo da última vez.

— Você vai mandar o dinheiro de novo?

— É minha mãe.

— Eu sei. Mas é sua mãe todo mês. Toda semana, na verdade.

Ele abriu o notebook outra vez. A tela acendeu exatamente na planilha, como se o universo quisesse esfregar os números na cara dele. Dois mil e cem pra cá. Mil e quinhentos pra lá. Farmácia, gás, condomínio. O apartamento da mãe ficava no Caiçara, uma região boa, três quartos, varanda grande. Aluguel? Ela nunca cogitou. Tinha medo de inquilino que destrói as coisas, de calote, de dor de cabeça.

— Carla, ela prometeu que vai começar a vender aqueles bolos de pote no sinal. Disse que já comprou as forminhas.

— A mesma promessa do Natal.

Era verdade. No Natal, dona Mariza havia jurado que em janeiro começava. Depois, que era depois do Carnaval. Agora, que era depois da Semana Santa.

O celular vibrou em cima da mesa.

— Filho? — a voz da mãe soou alta, arrastada, com o barulho da televisão ao fundo. — Pensei em uma coisa: e se eu me mudasse pra sua casa? Aquele quartinho da bagunça daria um cantinho bom pra mim. Aí eu alugava o meu apartamento. Você sempre diz que o dinheiro tá curto. Ficava bom pros dois.

Pedro encarou o teto. O quartinho da bagunça era um cubículo de dois metros por um e meio, onde mal cabia a tábua de passar roupa e um varal. Ele sentiu a nuca latejar.

— Mãe, não cabe. Aqui é pequeno.

— Que pequeno, menino. Dá um jeito. Sua avó morava com a gente. Sua tia também. Vocês inventam moda.

— Mãe…

— Tá, depois você pensa. Mas me faz o Pix, tá? Senão perco a promoção. Beijo.

A ligação caiu.

Carla já tinha saído da cozinha. Ele a encontrou no quarto, sentada na cama, desamarrando o tênis com os dedos lentos. No criado-mudo, um livro aberto ao contrário, a lombada pra cima.

— Vou transferir. Última vez.

Ela levantou os olhos. Não disse nada, mas o silêncio dela era o tipo de coisa que Pedro ouvia mais do que qualquer grito.

No sábado, dona Mariza chegou sem avisar. Sete e vinte da manhã. Pedro tinha virado a noite resolvendo um bug no sistema da empresa e caído no sofá com a roupa do trabalho. Carla ainda estava no quarto.

A campainha tocou três vezes, rápida.

Pedro atendeu o interfone com voz pastosa:

— Mãe?

— Abre aqui. Trouxe umas coisinhas.

Ela subiu carregando duas sacolas de supermercado. Uma delas rasgou no elevador e derramou limões pelo corredor. Pedro catou um que rolou até o capacho. A casca estava murcha, meio amassada.

— Comprei na promoção ali na feira da Afonso Pena. Quatro limões por um real. Pra fazer um chá, um suco. Sua avó sempre dizia que limão purifica o sangue.

— Mãe, são sete da manhã. A gente tava dormindo.

— Dormindo? Sete horas? Eu com a idade de vocês já tinha lavado roupa, passado o café e ido na padaria.

Ela entrou no apartamento e foi direto pra cozinha. Pedro viu o olhar que ela deu para a louça na pia — duas xícaras e um prato.

— Essa menina não lava nem a louça antes de dormir? — o comentário saiu alto, calculado pra chegar no quarto.

A porta do quarto se abriu. Carla apareceu enrolada em um roupão velho, cabelo preso em um coque frouxo, caindo de um lado. No pé esquerdo, uma meia listrada; no direito, o pé no chão. Ela tinha esquecido de calçar o par.

— Bom dia, dona Mariza.

A mulher nem respondeu. Abriu a geladeira e franziu a testa.

— Não tem manteiga. Gente, vocês são igual dois estudantes. E essa carne moída aqui? Já tá marrom. Vai fazer mal. Querem morrer intoxicados?

— Mãe, a carne é de ontem. Comprei ontem no açougue.

— Não parece.

Carla pegou um copo, encheu de água e bebeu, de costas para as duas, olhando pela janela. Na rua, um carro de som anunciava a promoção de uma loja de colchões. *"Colchão ortopédico, doze vezes sem juros, aproveite!"*

Pedro a viu ali, os ombros caídos, a mão segurando o copo com os dedos brancos de tanta força. Ela estava se segurando. De novo.

— Mãe, vamos tomar um café na padaria. A Carla precisa descansar.

— Descansar? Descansar do quê? Na idade dela, eu já tinha dois filhos e dava conta de uma casa. Vocês são muito molengas. Depois não sabem por que o casamento vai mal.

Carla se virou devagar. O rosto dela estava estranhamente calmo, mas Pedro conhecia aquela expressão — era a calma de quem já tinha tomado uma decisão e só não tinha falado ainda.

— Vou tomar um banho — ela disse. — Com licença.

Passou pela sala. A porta do banheiro fechou com um clique seco.

Dona Mariza bufou.

— Não sabe nem receber visita. Vai ver por isso que você tá sempre cansado. Mulher boa deixa o homem leve.

Pedro sentou no sofá e ficou olhando para o notebook desligado. Na tela escura, ele viu o próprio reflexo. O rosto tenso, a barba malfeita, os olhos vermelhos do sono picado. Tinha trinta e quatro anos e se sentia com sessenta.

Naquela noite, depois que a mãe foi embora — com a promessa dele de "pensar no quartinho da bagunça" —, Pedro abriu o aplicativo do banco. Ficou rolando a tela, vendo o extrato. Depois abriu o aplicativo do cartão de crédito. Anotou tudo em um papel: o saldo devedor, as parcelas que ainda corriam, o valor do consórcio do carro, o financiamento do apartamento, o plano de saúde da mãe, o IPVA atrasado do carro dela, a ração cara, os remédios, a feira, o gás que ela nunca pagava.

No fim da página, ele escreveu um número: *cento e quarenta e dois mil reais*. O que ele estimava ter mandado pra mãe nos últimos onze anos.

Onze anos.

Pegou o telefone e ligou para um corretor que conhecia.

— Alisson, beleza? Cara, me tira uma dúvida: quanto você acha que vale um apartamento de três quartos no Caiçara, vaga na garagem, piscina no condomínio? … Hum. … Pode me mandar uma estimativa por escrito?

Não era vingança. Era matemática.

Na segunda-feira pela manhã, Pedro foi até a imobiliária. Assinou a papelada. O anúncio entrou no ar na terça.

Na quarta, dona Mariza ligou berrando.

— Seu louco! Você botou meu apartamento pra vender?!

— É meu, mãe. Tá no meu nome. Eu paguei a entrada, eu pago o condomínio, eu pago o IPTU há seis anos. A senhora mora lá, mas o imóvel é meu.

— Eu sou sua mãe!

— E eu sou seu filho. Mas não sou seu banco.

Ela ficou muda por uns segundos. Dava pra ouvir a TV ligada ao fundo, um programa de auditório com plateia gritando.

— Você vai me jogar na rua?

— Ninguém vai jogar ninguém na rua. A senhora vai receber sua parte quando vender. Trinta por cento. Está na escritura. Dá um bom dinheiro. Dá pra alugar algo menor, mais fácil de manter. Ou a senhora usa pra viver um tempo.

— Eu não quero me mudar! Eu quero minha casa!

— A casa não é sua. Desculpa, mas nunca foi.

O silêncio que veio depois tinha outro peso. Não era raiva. Era o som de uma estrutura inteira ruindo — a estrutura onde dona Mariza era a dona da situação, e Pedro, o menino que sempre mandava o Pix a tempo.

À noite, ele chegou em casa e encontrou Carla na varandinha, sentada em uma das cadeiras de plástico, bebendo cerveja e olhando as luzes da cidade. O céu estava cheio de pequenos aviões piscando, descendo para o Confins.

Ele se sentou ao lado dela. Ficaram um tempo assim.

— Pronto? — ela perguntou sem desviar o olhar dos aviões.

— Pronto.

— E você?

— Eu tô bem. Estranho, mas bem.

Ela esticou o braço e tocou a mão dele. Não disseram mais nada.

Na manhã seguinte, acordaram tarde. O sol entrava pela fresta da cortina e desenhava listras no chão da sala. A louça da noite anterior ainda estava na pia — dois copos de cerveja, um prato de queijo coalho. Pedro olhou pra bagunça e sentiu uma coisa estranha no peito, um alívio que não doía.

O celular vibrou. Mensagem da mãe:

*"Você me decepcionou."*

Ele não respondeu. Bloqueou o número.

Depois abriu o aplicativo do banco outra vez. Conferiu o saldo da conta poupança — aquela que ele e Carla mantinham pra uma viagem que nunca faziam. Transferiu duzentos e cinquenta reais. A primeira parcela do que seria um mês de férias em Maragogi.

Carla saiu do banho enrolada na toalha, ainda descalça, e viu a tela do celular.

— O que foi isso?

— A passagem. Vai ser em setembro.

Ela riu. Não era um riso alto, daqueles que enchem a sala. Era um riso baixo, de canto de boca, como quem começa a acreditar em alguma coisa.

Pedro desligou o telefone e puxou a cadeira. Sentou-se à mesa da cozinha e reparou na fruteira de barro que Carla trouxera de uma feira de artesanato. Dentro, três limões amarelos, frescos, que ainda não tinham sido usados para nada.

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Odissea
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