O número na coleira

Miguel inclinou-se para o cão apenas porque viu a pequena chapa na coleira.

O animal estava sentado junto aos contentores atrás de uma mercearia no Porto. Não ladrava, não chorava, não corria atrás de ninguém. Ficava ali, quieto, magro, com o pelo ruivo em nós e os olhos castanhos cansados, como se já tivesse aprendido que pedir demais só afasta as pessoas.

A coleira, porém, era boa. Couro antigo, gasto, mas resistente. Presa nela havia uma chapa de cobre em forma de osso.

Um número de telefone.

Miguel limpou-a com o polegar e leu os algarismos.

Depois leu outra vez.

Sentiu um aperto no peito.

Conhecia aquele número.

Ligou. Chamou durante muito tempo. Ninguém atendeu. Depois a chamada caiu.

O cão levantou a cabeça.

— E agora, o que faço contigo?

Quando Miguel se afastou, o cão seguiu-o. Dois passos atrás. Sempre. À porta do prédio, sentou-se e esperou.

Miguel vivia sozinho desde o divórcio. Tinha uma vida pequena, arrumada para não depender de ninguém nem ser necessário a ninguém. Jantava muitas vezes de pé, deixava a televisão ligada e dizia que gostava de silêncio.

Mesmo assim, abriu a porta.

Deu água ao cão numa taça grande. Ele bebeu com sede. Depois cheirou a entrada, o tapete, o sofá, a cozinha. Miguel ofereceu-lhe fiambre. O cão recusou e deitou-se junto ao aquecedor.

Miguel olhou novamente para o número.

Abriu os contactos.

Mecânico. Farmácia. Trabalho. Seguro.

E depois:

„Mãe“.

O mesmo número.

Sentou-se.

A mãe, dona Teresa, morrera havia quase dois anos. Um AVC. Hospital. Três dias. Miguel chegara tarde. Tinha estado em Lisboa em reuniões. Disseram-lhe que ninguém podia prever. Que a vida era assim. Que não devia culpar-se.

Mas ele lembrava-se das chamadas que não atendera.

— Liga quando chegares — dizia ela sempre.

E ele ligava.

Até começar a adiar.

No dia seguinte foi ao antigo prédio da mãe, em Matosinhos. A entrada cheirava a lixívia e humidade. Na caixa do correio ainda se lia, desbotado: „T. Almeida“.

A vizinha, dona Lurdes, abriu-lhe a porta.

— Encontraste o Tobias, não foi?

Miguel ficou imóvel.

— Tobias?

— O cão da tua mãe.

Na cozinha dela, com cheiro a sopa, dona Lurdes contou. Tobias apareceu numa noite de chuva, deitado à porta de Teresa. Ela deu-lhe água, depois comida, depois um nome. Passeavam juntos todos os dias, devagar, até ao jardim. Teresa mandou fazer a chapa porque tinha medo de o perder.

— Ela dizia que ele andava sempre dois passos atrás. Como quem guarda sem prender.

Miguel passou a mão pelo rosto.

— Porque nunca me contou?

Dona Lurdes respondeu sem crueldade:

— Tentou. Mas tu estavas sempre com pressa. Ela não queria incomodar.

Incomodar.

A palavra partiu qualquer coisa dentro dele.

Quando a ambulância levou Teresa, Tobias ficou três dias à porta. Sem comer. No quarto dia desapareceu.

— Pensei que tinha morrido — disse a vizinha. — Ou que alguém o levara. Afinal, procurou até te encontrar.

Miguel voltou para casa sem rádio.

Tobias esperava no corredor. Abanou a cauda uma vez.

Miguel ajoelhou-se.

— Tu estiveste com ela — murmurou. — Quando eu não estive.

O cão encostou o focinho à sua mão.

A partir desse dia, a casa deixou de ser apenas um lugar limpo e vazio. Havia uma tigela junto ao frigorífico, uma trela perto da porta, pelos no casaco, passeios de manhã. Miguel começou a visitar a campa da mãe com Tobias. Na primeira vez, o cão deitou-se junto à pedra como se reconhecesse a espera.

— Mãe, desculpa — disse Miguel. — Por todas as vezes em que deixei para depois.

O vento passou entre os ciprestes. Nada respondeu.

Mas Tobias ficou ali.

E Miguel percebeu que há perdas que não se reparam, mas que ainda nos podem ensinar. A atender. A aparecer. A não fazer esperar quem só queria ouvir a nossa voz.

Às vezes, o último recado de uma mãe não vem em palavras.

Vem num cão velho, com o número dela na coleira, a lembrar-nos que casa é onde alguém ainda espera.

 

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Odissea
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