Um mês sem amor

Sônia percebeu que a filha estava indo embora de verdade quando viu os livros na caixa. Não era a primeira mudança de Lívia, mas dessa vez tudo estava etiquetado com a letra miúda da filha: “sala — decoração”, “quarto — cabeceira”, “cozinha — frágeis”. Ela ficou olhando o cuidado com que a filha enrolava um vaso de cerâmica que ela mesma havia dado de presente de aniversário anos atrás. Aquele vaso sempre ficou largado no canto da estante, com uma rachadura. Sônia já tinha sugerido jogar fora. Agora ele ganhava plástico-bolha.

Lívia tinha trinta e três anos e aceitara um cargo de designer em Florianópolis. Morava a vinte minutos de carro da mãe, em Porto Alegre, e de repente estaria a quase quinhentos quilômetros, algumas horas de ônibus, um mundo. Sônia se aposentara do magistério havia dois anos e tinha a sensação de que seu relógio agora só funcionava em função da filha. A mudança era uma ameaça.

Nos dias anteriores à partida, Sônia se transformou numa agência de informações. Imprimiu a planta do bairro novo, encontrou o posto de saúde mais próximo, pesquisou no site da prefeitura a coleta de lixo e ligou para a imobiliária perguntando se havia infiltração no apartamento — apenas como “futura inquilina interessada em outro imóvel do mesmo condomínio”. Lívia agradecia por educação, depois respondia monossílabo, e na véspera pediu:

— Mãe, senta aqui um pouco. Só fica comigo.

Sônia sentou na mala. Ficar quieta doía. Observou a filha fechar uma caixa de utensílios e viu que não colocou etiqueta de “frágil” nos pratos. Conteve-se. Mas não resistiu:

— Você vai me ligar todo dia?

Lívia suspendeu a fita adesiva. Disse que ligaria, sim, mas não todo dia. Precisava se adaptar à nova rotina, aos novos colegas, entender o trânsito da ilha. Sônia ouviu aquilo como uma lista de coisas nas quais a mãe atrapalhava.

No terminal rodoviário, ela checou a passagem três vezes. Perguntou ao motorista se a poltrona era reclinável, se haveria parada, se a estrada estava em obras. Lívia parecia uma adolescente sendo despachada para o exterior pela primeira vez. Antes de embarcar, a filha a abraçou e disse, com voz mansa:

— Mãe, eu queria te pedir uma coisa. Um mês sem surpresas. Sem você aparecer do nada. Sem ligar cinco vezes por dia. Sem falar com meus amigos, nem com a síndica, nem com a galera do trabalho. Se eu precisar de ajuda, eu mesma peço.

Sônia sentiu o peito apertar.

— Eu te atrapalho?

Lívia fechou os olhos. Exatamente o que temia. Explicou que a mãe não atrapalhava, ocupava tudo antes que a filha pudesse sentir se era difícil ou não. Era amor, mas um amor que não deixava nem o espaço do erro.

O ônibus partiu quinze minutos depois. Em casa, Sônia se deu conta de que o silêncio não era ausência de barulho, mas ausência de utilidade. A filha morava sozinha, mas no mesmo bairro. Ela podia levar uma sopa, buscar uma blusa na costureira, ajudar a escolher cortina. O telefone tocava com dúvidas de contrato, desabafos sobre a chefe, pedidos de receita. Agora, o aparelho era um tijolo com uma regra: um mês.

No primeiro dia, Sônia mandou “chegou bem?” Lívia respondeu “sim”. Sônia escreveu “me liga quando der”. Não houve ligação.

No segundo dia, a previsão em Florianópolis era de tempestade. Sônia abriu o aplicativo, viu alerta de ventania e digitou o número da filha. Apagou antes de chamar. Ela mesma enfiou o guarda-chuva na mochila de Lívia.

No terceiro dia, uma notícia na internet: rompimento de adutora no bairro vizinho ao da filha. Sônia ligou para a concessionária de água. Informou o endereço de Lívia como se fosse sua casa, perguntou se havia abastecimento. Quando o atendente pediu o número da matrícula, ela desligou, envergonhada. Pouco, só o suficiente para não contar a ninguém.

Lívia ligou no domingo. Estava animada, falou do estúdio, do apê com vista para o morro, da feira orgânica onde se perdeu. Sônia esperava uma queixa. A filha não reclamava de nada. Sônia então procurou os problemas: lembrou da revisão do carro, perguntou se já havia trocado a resistência do chuveiro, sugeriu não sorrir muito para o novo chefe para não se aproveitarem da bondade dela. No outro lado da linha, um silêncio comprido.

— Mãe, você tá fazendo de novo.

Essas palavras Sônia conhecia bem. “De novo” significava que o cuidado dela era lido como defeito. Desligou magoada e passou dois dias sem responder às mensagens direito, esperando que a filha sentisse a falta. Lívia parecia não notar. Mandava fotos da praia, da estante que montara sozinha — torta, um lado mais baixo que o outro. Sônia ampliou a imagem. As mãos coçaram para escrever “os suportes estão errados, isso vai cair”. Digitou, apagou, digitou, apagou. De madrugada, sonhou que a prateleira caiu em cima da filha. Pela manhã, mandou um link de buchas melhores. Lívia respondeu com um coraçãozinho. Não comprou nada.

Uma semana depois, Sônia saiu com uma amiga, Dora, num café. Contou a partida da filha como um abandono súbito. Dora ouviu, mexendo o cappuccino, e perguntou o que Sônia pretendia fazer agora.

Pergunta inconveniente. Sônia trabalhara a vida inteira, depois da aposentadoria virara suporte da filha: ajudou na reforma, procurou emprego para ela, tratou da alergia do gato que ficou com o ex-namorado da Lívia. Tinha livros, um sítio da prima, vizinhas, televisão. Mas nenhuma ocupação precisava dela com urgência.

— Descansar — respondeu.

Dora sorriu. Disse que ela descansava há dois anos, só que de um jeito muito atarefado. Discutiram, coisa leve. Sônia voltou para casa mais cedo e comprou iogurte sem açúcar, queijo minas e maçã argentina, as coisas que a Lívia amava. Só se deu conta no caixa que a filha estava em outro estado. Comeu tudo sozinha, o iogurte azedo.

No décimo dia, a síndica do prédio de Lívia ligou. Sônia havia deixado seu contato na ficha de emergência e ainda pedira que avisasse qualquer problema. A mulher contou que havia um vazamento no banheiro, a filha chamara um encanador, resolvido, mas precisou pagar. Sônia sentiu um calafrio e um triunfo ao mesmo tempo. Aí estava. A filha não dera conta. Ligou para Lívia antes mesmo de dizer alô:

— Por que você não me ligou? Que encanador é esse? Tem nota? Quanto foi?

A filha respirou fundo. Explicou que era a mangueira da máquina de lavar, o proprietário reembolsou, os vizinhos de baixo não tiveram danos. Tudo resolvido em duas horas.

— Eu resolvi, mãe. Não ficou perfeito, mas eu resolvi.

Sônia retrucou que não era questão de capacidade, era questão de confiança. Lívia perguntou, baixinho, por que confiança para ela sempre significava prestar contas.

O telefonema se despedaçou ali.

Sônia passou a noite na cozinha, com um caderno onde anotava tudo: médicos da filha, vencimentos de faturas, datas de seguro, uma lista de alimentos que Lívia não comia desde a adolescência. Folheou aquelas páginas e, pela primeira vez, não enxergou amor. Viu um sistema de controle. Um mapa tão bem desenhado que não sobrava espaço para a filha errar sem uma testemunha.

Essa constatação não a deixou mais sábia. Deixou-a mais magoada.

Passou dois dias em silêncio. No terceiro, esperou desculpas. No quarto, decidiu que a filha era ingrata. No quinto, arrumou uma mala. Colocou congelados, uma colcha de crochê, um novo sifão para a pia e uma pasta de documentos. Comprou uma passagem de ônibus para Florianópolis, horário da manhã. Não pretendia interferir, só dar uma olhada. Podia aparecer de surpresa, a filha ia reclamar no começo, mas depois se alegrar.

No terminal rodoviário, Sônia chegou cedo. Sentou-se com a mala entre as pernas. Pessoas viajavam para ver filhos, pais, trabalho. Ninguém precisava de autorização para amar os seus. Chamaram a plataforma. Sônia se levantou e, de repente, visualizou o rosto da filha abrindo a porta. Não alegria, não raiva. Cansaço. O mesmo cansaço com que Lívia pedira um mês.

Faltavam cem metros até o ônibus. Ela ficou parada, as pessoas desviando com malas. O motorista fez menção de fechar a porta. Alguém atrás pediu licença. Ela não foi.

O ônibus partiu.

Na cadeira da rodoviária, Sônia abriu a mala. Os congelados cheiravam a alho. O sifão novo estava em cima, prova de um problema que já tinha sido resolvido sem ela. Teve vontade de chorar, não pela distância, mas porque entendeu: durante anos, Lívia pedira o direito de viver, e ela só ouvia o pedido de abandono.

Voltou para casa. Deu os congelados para a vizinha do terceiro andar, que estava com os netos. Devolveu o sifão à loja de materiais de construção. Jogou a passagem fora sem fotografar, sem contar para a filha sobre a grande renúncia.

Nos dias que restavam do mês, fez coisas esquisitas. Inscreveu-se na hidroginástica, mesmo achando ridícula a touca. Foi a um clube de leitura na biblioteca do bairro e passou a tarde inteira sem dar palpite na mediação. Ajudou Dora a organizar as fotos antigas, mas foi embora quando o trabalho acabou, sem inventar uma nova tarefa. A vida não se encheu de repente. Na maior parte do tempo, Sônia sentia um tédio de quem foi desligado depois de cumprir um programa. Ficava com o celular na mão e parecia uma máquina esquecida ligada.

Lívia escrevia. Sônia respondia curto, não por castigo, mas porque estava aprendendo a não incluir uma instrução em cada frase.

Exatamente um mês depois, a filha ligou de noitinha. Sônia viu o nome na tela e esperou três toques, para não atender antes do primeiro. Lívia contou que passara pela experiência no estúdio. A chefe ofereceu um projeto para coordenar. A estante torta resistia firme, mas ia trocar os suportes no fim de semana.

Sônia escutava. Os conselhos se atropelavam na boca: qual loja, qual marca, como negociar salário. Ela apertou a mão contra os lábios. A filha fez uma pausa e perguntou se estava tudo bem.

Sônia poderia ter dito que quase foi de surpresa. Poderia transformar a desistência em mérito e receber gratidão. Mas aí o mês teria sido outra história sobre o que a mãe fez pela filha.

— Eu entrei na hidroginástica — contou. — A touca fica horrível em todo mundo, não é só comigo. E no clube de leitura tem uma senhora que confunde Clarice Lispector com Cecília Meireles, mas fala com uma segurança de dar inveja.

Lívia riu. Depois disse que estava com saudade.

Sônia fechou os olhos. Aquela palavra ela esperava, mas agora não era vitória. Dava para ter saudade sem entregar o controle da vida.

— Também tô — respondeu.

A filha perguntou se podia visitar no fim de semana seguinte. Não porque tinha um problema. Só para voltar para casa.

Sônia olhou a sala. Imediatamente pensou em fazer compras, lavar as cortinas, preparar uma lista de perguntas, planejar os dias. Sentiu a engrenagem antiga girar. E parou.

— Vem — disse. — O que a gente vai fazer, a gente decide junto.

Depois que desligou, Sônia não montou cardápio. Não organizou a geladeira, não separou toalhas especiais. Aquilo foi mais difícil do que não pegar o ônibus.

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Odissea
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