Clarice Sabia o que Valdir Fez com a Herança, Mas Deixou Quieto Até o Filho Dele Querer a Casa da Mãe Dela

Morei sozinha por quase oito anos depois do primeiro divórcio, e era uma solidão que eu administrava bem, viu? Trabalhava numa padaria grande no centro de Campina Grande, aquela da esquina da Rua Maciel Pinheiro, que vive cheia de gente às seis da manhã. Minha filha Renata tinha ido fazer faculdade em João Pessoa, e a casa que meu pai construiu pra mim — com laje pronta pra segundo andar e um pé de acerola carregadíssimo no quintal — ficou silenciosa demais. A única voz que eu ouvia era a da Elisa, a caixa da padaria, me provocando.

— Clarice, tu já passou dos quarenta, se enfiou numa touca de freira e acha que a vida acabou? Olha ali, o Valdir, motorista de caminhão. Toda santa manhã ele compra pão francês aqui na tua cara e tu nem dá bom-dia pro homem.

Valdir. A gente estudou na mesma escola, séculos atrás. Ele era repetente, dois anos mais velho que eu, e passava o recreio puxando minhas tranças e chamando de "rabo de rato". Um dia eu me irritei, entrei em casa e cortei as tranças com uma tesoura de cozinha bem cega, sem dó. Minha mãe só suspirou, me levou no salão da Dona Lourdes, e eu saí de lá com um chanel bem curto, que mantenho até hoje.

Pois Valdir estava ali, todo dia, encostado no balcão, com a camisa da transportadora e as mãos cheias de calos. A ex-mulher e os dois filhos pequenos dele tinham ficado em Recife. Ele voltou pra cá com a cara no chão, morando numa casa que era do pai, caindo aos pedaços, com goteira, fiação antiga e cupim nos caibros.

No começo eu nem olhava. Depois do que passei com o Evandro — um sujeito que no namoro parecia um príncipe e que, dois anos depois de casado, me deixava hematomas que nem apareciam por baixo da blusa —, eu tinha prometido a mim mesma: se um homem levantar a voz pra mim uma vez, eu junto as coisas dele e ponho pra fora. E foi o que fiz.

Mas Valdir era persistente. Trocou as botas sujas de barro por tênis, passou a deixar o uniforme de trabalho dentro da cabine e ficava por ali, me esperando sair da padaria. Me acompanhava até em casa, contava como o teto da casa dele desabou na última chuva de março, ria das próprias trapalhadas. Um dia, do nada, ele parou na calçada e disse:

— Clarice, nunca devia ter puxado teu cabelo, menina. Nem te chamado de rabo de rato. Tu tem ideia do quanto eu era burro?

Eu ri. Um riso baixinho, que pra mim já era um sinal de perigo. Aguentei um ano inteiro recusando convite pra jantar. Até que uma noite, ele apareceu no portão com um bolo de milho que a irmã dele fez, e perguntou se eu queria casar com ele. Disse que era pra parar de agir como adolescente, que a gente já tinha idade pra ter sossego.

Aceitei. Mas mantive o sobrenome do meu pai. O Evandro tinha feito um inferno pra eu tirar o nome dele — e quando consegui, jurei que nunca mais colocaria o nome de homem nenhum nos meus documentos. Valdir fechou a cara, resmungou qualquer coisa, mas engoliu.

Nós casamos no civil, sem véu, sem grinalda, sem festa. E ele se mudou pra minha casa. A própria casa dele ele vendeu por uma ninharia pra um primo. Eu nem perguntei do dinheiro — era problema dele.

No início, tudo ia bem. Ele não era carinhoso, mas era calmo. Só que aí minha mãe adoeceu — um câncer rápido, daqueles que não dão trégua. Em oito meses, dona Norma se foi. A casa dela, enorme, com azulejos portugueses até o teto, na Vila Cabral de Baixo, ficou fechada. Aluguei pra um casal de Recife. Pagavam certinho, todo quinto dia útil, e ainda mandavam foto das orquídeas que minha mãe cultivava, pra mostrar que estavam cuidando.

Esse dinheiro do aluguel eu mandava todo mês pra Renata, que estava se apertando com o financiamento do apartamento em João Pessoa. Valdir nunca botou a mão nesse dinheiro. Mas também nunca perguntou.

As coisas começaram a degringolar quando o Bruno apareceu no portão. Bruno: vinte e seis anos, um metro e oitenta e cinco, filho mais velho do Valdir com a ex-mulher. Disse que vinha passar o fim de semana. Ficou um mês. Depois dois.

A sala, que eu deixava como o espelho do altar — tapete na marca, almofada no ângulo, cheiro de lustra-móveis —, virou um chiqueiro. Ele espalhava meia suja atrás da estante, deixava prato com resto de feijão tropeiro embaixo do sofá, bebia direto da garrafa de suco e punha a garrafa vazia de volta na geladeira. Eu acordava de madrugada com a luz da cozinha acesa e o som da travessa de cuscuz raspando.

— Valdir, esse rapaz vai ficar até quando enfiado no meu sofá? — eu perguntei, uma manhã, depois de achar um pedaço de pizza no aparador da sala.

— Ele não tem pra onde ir, Clarice. A mãe dele meteu outro cara dentro de casa, eles brigam direto. O Bruno não aguenta mais.

— Olha, sinto muito. De verdade. Mas ele pode muito bem procurar um emprego e alugar uma quitinete. Eu não tenho que sustentar marmanjão.

Foi aí que a máscara caiu. Não foi aos poucos — foi de uma vez, como uma tábua solta que vira e joga a gente no chão.

Valdir levantou o braço e desceu o punho fechado em cima da mesa da cozinha. A minha caneca — aquela de porcelana com florzinhas, que minha mãe me deu — deu um pulo, e a colherzinha voou. Eu peguei a caneca no ar. Meu coração disparou, mas minha mão não tremeu.

— Tu vai ficar quieta! — ele berrou, com os olhos injetados. — Eu vendi a casa do meu pai, botei tudo nessa tua reforma, me livrei de um teto por tua causa! Tu me deve até o último dia da tua vida! E o Bruno vai ficar aqui. Ou então… ou então a gente desocupa a casa da tua falecida mãe e bota ele lá.

— A casa da minha mãe, Valdir. A casa é minha. Não é nossa.

— Meti dinheiro aqui. Do meu bolso.

— Valdir, que reforma? A massa corrida tu mesmo fez e ficou torta. A porta do armário não fecha. O dinheiro do teu casebre… cadê? Cê acha que eu não sei?

Eu sabia. A transportadora, semanas antes, tinha me mandado uma intimação extra-judicial por engano, no endereço da padaria. Valdir devia quase cinquenta mil reais de pensão alimentícia atrasada pras duas crianças de Recife. O valor da venda da casa tinha ido exatamente pra amortizar aquela dívida. Ele nunca havia posto um tostão na minha casa. Mentiu pra mim, e mentiu pra si mesmo, porque precisava acreditar que era o provedor.

Mas naquela noite eu não falei nada disso. Só peguei a bolsa e saí. Fui andando pela calçada de pedra irregular da Vila Cabral de Baixo. A lua estava cheia, daquelas que clareiam o chão o suficiente pra não pisar em falso. Fui até a casa da minha mãe.

Dona Isaura, a inquilina, me recebeu com um abração. A casa estava cheia — filho, nora, netos. Música baixinha, cheiro de bolo de macaxeira.

— Clarice, que bom que veio! Entra, toma um café.

— Não, Isaura, obrigada. Vim avisar. Se o Valdir aparecer aqui dizendo que vocês têm que sair, não deem ouvidos e não abram o portão. Essa casa é minha, o contrato tá no meu nome. E ninguém vai tirar vocês daqui.

Isaura fez uma pausa, trocou um olhar com o marido e disse:

— Ele já veio. Hoje de manhã. Falou que o filho dele ia casar, que precisava do imóvel, que nós tínhamos que desocupar em trinta dias. Chegou a medir o quintal.

Senti o sangue subir. Primeiro o soco na mesa, depois a invasão na casa da minha mãe.

— Não se preocupe, Isaura. Ninguém vai a lugar nenhum.

— Clarice, quer ajuda? Meu filho e meu genro são dois brutamontes, podem ir lá conversar com ele…

— Não precisa. Eu mesma resolvo.

Voltei pra casa pisando firme. O galo de um vizinho cantou quando eu abri o portão. Valdir estava na sala, vendo um programa de auditório, como se nada tivesse acontecido. Do quarto, dava pra ouvir o som de tiro de um videogame — o Bruno, jogando online, suando no travesseiro que minha mãe tinha bordado.

— Cadê o pão? — Valdir perguntou, sem tirar os olhos da TV.

— Não tem pão. E não vai ter. Vocês dois vão juntar as trouxas agora.

— Que isso, mulher? Pirou de vez?

— Bruno! — gritei, num tom que fez o videogame pausar. — Pega tuas coisas. Você e teu pai estão de saída.

Valdir levantou do sofá devagar, estufando o peito. Aquele peito de homem acostumado a carregar nada mais pesado que uma raiva envelhecida.

— Clarice, cê tá louca. Eu sou teu marido. Te dei todo o meu dinheiro.

— Cadê? Onde foi parar o dinheiro da venda da casa do teu pai?

Ele gaguejou. O rosto, antes vermelho, ficou roxo.

— Foi… foi pra essa casa aqui. Essa reforma…

— A única coisa reformada foi tua dívida de pensão, Valdir. Eu sabia. Sempre soube. Mas calei. Agora, depois de tu levantar a mão pra mim e tentar tomar a casa que o meu pai ergueu — e a casa onde a minha mãe morreu —, acabou.

O Bruno saiu do quarto com o controle na mão.

— Pô, pai, o que tá acontecendo? Cê não consegue controlar tua mulher, não?

— Cala a boca, Bruno — falei, sem olhar pra ele. Meu corpo inteiro formigava, mas eu estranhamente não sentia mais medo. — Tu é adulto. Arranja um emprego. E sai. Agora.

Valdir começou a misturar súplica com deboche. Ajoelhou? Não. Macho paraibano não se ajoelha. Mas ficou ali, parado, os ombros caídos, a respiração pesada de quem acha que a mulher vai ceder no cansaço.

— Clarice, vamo conversar… São quase meia-noite. A gente sai amanhã cedinho. O Bruno junta as coisas e some. Tu é minha esposa, a gente pode…

— Pode nada. Eu vivi isso antes. A diferença é que o Evandro me batia. Tu só teve a chance de bater na mesa. Mas a próxima seria em mim. Eu sei. E eu não vou esperar pra ver.

Juntei a mochila do Bruno — uma mochila preta, suja, com uma meia pendurada do lado de fora — e entreguei pra ele. Depois peguei a bolsa de viagem do Valdir e joguei na varanda.

Eles saíram, resmungando, se xingando. O Bruno culpando o pai por ser "um fracassado que não segura mulher". O Valdir culpando o filho por ter transformado a casa numa pocilga. A vizinha da frente — Dona Célia, que tem insônia e cuida da vida alheia — abriu a janela no clic da persiana e perguntou se precisava chamar a polícia.

— Não, Dona Célia. Pode dormir. Mas amanhã me empresta o contato do seu serralheiro?

Troquei as três fechaduras no dia seguinte. Todas. Até a do portão social. Gastei setecentos e vinte reais, que paguei à vista, com a sensação de que cada chave nova era um ano de vida recuperado.

Valdir entrou com um pedido de usucapião e danos morais. O advogado dele era um recém-formado que aceitava ação no risco. Não provaram nada. Pelo contrário: no processo, a ex-mulher dele juntou o demonstrativo da dívida de pensão que ele havia quitado com o dinheiro da casa. O juiz extinguiu a ação em quinze minutos, e ainda mandou os autos ao Ministério Público por litigância de má-fé.

Quanto ao Bruno, fiquei sabendo pela Elisa, da padaria, que está trabalhando num lava-jato na beira da BR, e que divide um quarto alugado com mais dois rapazes. Dizem que ele lava carro direito. Torço pra que aprenda a lavar as próprias meias.

Agora, a Renata aparece aqui todo domingo. Vem com o noivo, o Moisés — um rapaz quieto, engenheiro civil, que adora pé de acerola e me chama de "dona Clarice" como se eu fosse uma senhora de oitenta anos. No último domingo, eu fiz uma panela de baião de dois e a gente ficou na varanda até o sol se pôr. Renata encostou a cabeça no meu ombro e perguntou:

— Mãe, tu não sente falta de ter alguém?

Olhei pro quintal. Pro pé de acerola, carregado de novo, com as frutinhas vermelhas brilhando no fim da tarde.

— Sinto falta de ter sossego, filha. Isso eu sinto. E agora eu tenho.

Os maribondos estavam fazendo casa no beiral do telhado vizinho. Ninguém mexeu com eles. Nem eles com a gente.

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