Sogra em casa: o dia em que arrumei as malas e disse chega

Nunca pensei que fosse capaz de fazer isso, mas fiz. Eu, Augusto, cinquenta e seis anos, dono de uma oficina mecânica em João Pessoa, ex-marido paciente, filho dedicado. Arrumei uma mala, chamei um táxi e fui embora da minha própria casa. Com a minha mãe. Sem avisar a minha mulher. E foi a melhor coisa que poderia ter feito.

Minha mãe, Dona Sebastiana, tem oitenta e três anos. Meu pai morreu fazia dois anos, e ela ficou sozinha naquela casa antiga em Campina Grande, com a cisterna vazia e o medo de cair no quintal de cimento. Meus dois filhos já são casados, um mora em Recife, outro em Natal. Eu e minha esposa, Márcia, tínhamos um apartamento de dois quartos no bairro de Manaíra. Sala ampla, varanda com rede, ar-condicionado no quarto do casal. Parecia que dava certo.

Nos primeiros dias, Márcia até foi educada. Serviu café, comprou um bolo de macaxeira para a visita. Mas na primeira semana a máscara caiu.

— Augusto, se ela vai ficar aqui, melhor comer depois da gente.

— Como assim, depois?

— É mais confortável. Não consigo jantar vendo ela mastigar sem dentadura. Fico sem apetite.

— Para com isso. Todo mundo envelhece.

— Eu, hein. Prefiro não pensar.

Eu engolia seco. Minha mãe ouvia tudo do quarto, porque a parede era fina. Sentia o cheiro do café requentado e fingia que não era com ela. Mas era.

Márcia implicava com tudo. Com o cheiro do remédio, com a bengala encostada na parede da sala, com o barulho da televisão às seis da manhã. Depois implicou com o fato de Dona Sebastiana usar fralda geriátrica à noite, com o ronco, com o jeito dela arrastar os pés pelo corredor. Proibiu ela de entrar na cozinha, dizia que era para não se cansar. Mas era para não sujar. Depois proibiu de sair do quarto.

— Ela fica perambulando pela casa, me deixa nervosa.

— Márcia, é a casa dela também agora.

— Não é. A casa é nossa. Ela está de favor.

E ali eu percebi uma coisa que me doeu mais do que qualquer palavra: a Márcia não estava só cansada. Ela estava com nojo. Do cheiro, do corpo velho, da lentidão. E o nojo crescia como mofo em parede úmida.

Um dia cheguei da oficina, perto das seis da tarde. Abri a porta e o apartamento estava estranho. Silêncio total. Na cozinha, uma panela de feijão no fogo baixo. E no corredor, sentada numa cadeira de plástico, minha mãe. De saia rodada, sandália de dedo, o terço na mão e uma mala de couro marrom ao lado.

— Mãe?

Ela se levantou, apoiando as duas mãos no braço da cadeira.

— Meu filho, eu queria pedir uma coisa. Me leva no abrigo.

O coração me subiu à garganta.

— Que abrigo, mãe? Tá doida?

— A Márcia me falou de um lugar, ali depois do bairro dos Bancários. Santa Clara. Ela disse que é limpinho. Que tem médico.

— A Márcia te falou isso?

— Falou. E eu já decidi. Não quero atrapalhar teu casamento.

Peguei o copo de água, bebi metade, encostei na pia. Olhei pela janela. Lá fora, o vendedor de pamonha gritava na esquina, o sol batia nos coqueiros da avenida. Tudo normal. E dentro de mim, um estrago.

Liguei para Márcia. Estava no salão, escova progressiva, meia hora de retorno.

— Onde você tá?

— Já te disse. Tô no salão. Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu. Você falou pra mãe ir pro abrigo?

Silêncio do outro lado. Aquele silêncio de quem foi pega no pulo.

— Falei, Augusto. Porque aqui virou um hospício. Ela não para de rezar cedo, anda pela casa cheirando a mijo, eu não aguento mais. Sua mãe me esgota. Eu não aguento.

Ela falava alto, eu ouvia o barulho do secador ao fundo, a vida dela correndo normalmente. E do outro lado do corredor, minha mãe sentada na mesma cadeira, com a mala pronta. Me deu uma raiva tão grande que tive que sentar.

— Escuta aqui, Márcia. Se alguém for sair de casa, é você. Minha mãe não vai a lugar nenhum.

Ela riu.

— Quem paga as contas aqui? Você não vai arrumar nada sozinho, Augusto. Para de drama.

Desliguei.

Naquela noite não jantei. Fiquei sentado na varanda, olhando a rede. Minha mãe saiu do quarto, me trouxe um copo de chá de erva-doce. Não disse nada. Ela nunca precisou dizer muita coisa. Reparei nas mãos dela pousando o copo na mesinha: as veias saltadas, a aliança fina de quarenta anos de casada, a unha do dedão machucada por causa de um tombo na feira. Pensei em quantas noites ela passou acordada cuidando de mim quando eu tinha asma. Pensei no meu pai. E pensei na Márcia.

No dia seguinte, cedo, fui ao banco. A Márcia não podia saber. A gente tinha uma conta conjunta da oficina, uma poupança de R$ 86.400. E eu decidi: metade é sua, metade é minha. Cada um pro seu lado. Tirei R$ 43.200, abri uma conta separada no meu nome. Depois passei na imobiliária e pedi para me mostrarem uma casa de dois quartos em Bessa, perto do mar. O aluguel era R$ 1.450. Me perguntaram se era com a esposa.

— Não. Com a minha mãe.

Voltei pra casa às onze da manhã. Márcia estava na sala, de robe, tomando café e mexendo no celular. Nem me olhou direito.

— Onde você esteve?

— Resolvendo minha vida.

Ela levantou a cabeça.

— Que vida?

— A minha. A da minha mãe. Vou alugar uma casa em Bessa. Vou morar com ela.

Márcia deixou a xícara cair na mesa. O café escorreu pelo tampo de vidro.

— Você tá falando sério?

— Tô. E vou levar só as minhas coisas. Mãe!

Dona Sebastiana saiu do quarto com a mala já pronta. Já tinha dobrado as poucas roupas, os remédios, os retratos do meu pai. Estava de blusa branca e um pano de cabeça. Márcia ficou em pé.

— Augusto, não vamos fazer isso. Senta aqui. Vamos conversar.

— Já conversei. Ontem. Você foi clara.

— Eu tava nervosa. Você não pode sair assim. E a oficina? E as contas?

— A oficina é minha. Os clientes me conhecem. As contas eu pago. E você fica com o apartamento. Por enquanto.

Ela me olhou como se eu fosse um estranho. E eu falei bem baixinho, para a minha mãe não ouvir tudo:

— Você reclamou que ela mastigava sem dentes. Que cheirava a mijo. Que te esgotava. Agora você fica com teu salão, tua progressiva, tua paz. E eu fico com quem me criou.

A Márcia arregalou os olhos. Tentou segurar minha mão, mas eu já tinha aberto a porta. Descemos no elevador em silêncio. Minha mãe apertou meu braço.

— Meu filho, e a tua esposa?

— Mãe. A senhora não é visita. É mãe.

O táxi chegou. Um Siena branco, desses de praça. O motorista guardou a mala no porta-malas. Minha mãe entrou e ficou olhando pela janela. Eu fiquei lá fora, olhando para o prédio. A Márcia apareceu na varanda do sexto andar, com o celular na mão. Acho que me filmava. Não me importei.

Entrei no carro. O motorista perguntou:

— Pra Bessa, é isso?

— Isso.

— Com a senhora?

— Sim. Mãe e filho. Vamos pra casa nova.

Na hora do almoço, ainda parados no trânsito da Epitácio Pessoa, abri o celular. Tinha vinte e três mensagens da Márcia. Não abri nenhuma. Olhei para o lado. Minha mãe dormia, a cabeça encostada na janela, o terço enrolado na mão esquerda. Dormia com a boca um pouco aberta, como quem confia no caminho.

Eu sabia que ia vender a oficina dali a dois meses. Sabia que ia recomeçar aos cinquenta e seis. E senti uma calma esquisita no peito, diferente de tudo que eu tinha sentido nos últimos anos. Não era raiva, não era tristeza.

Paguei o táxi. Deu R$ 29,40. Ajudei minha mãe a descer. A casa era amarela, tinha um portão de ferro azul e uma jabuticabeira no quintal. Ela ergueu o rosto, sentiu o cheiro do mar seco de Bessa e disse:

— Aqui tem menino brincando na rua.

Ela ficou parada olhando as crianças na calçada, a mala ainda na mão. Entramos. Deixei as chaves em cima da mesa. Abri as janelas. A brisa entrou, balançando a cortina de renda.

À noite, sentei na calçada com o celular. A Márcia tinha mandado um áudio. Respirei fundo. Apertei o play.

— Augusto, volta. Eu tô sozinha. Você nem pode me abandonar assim. Nem pensei direito. Volta, por favor.

Fechei o áudio. Chamei um motoboy. Mandei entregar no apartamento um envelope. Dentro, a chave reserva do apartamento, um papel com a divisão da conta e a escritura da oficina em nome dos meus filhos. E um bilhete simples:

"Márcia, eu não vou voltar. Não é vingança. É escolha. A pessoa que eu quero ao meu lado daqui pra frente chama-se Sebastiana, tem oitenta e três anos e me esperou a vida inteira. Fica com a tua paz. Eu fico com a minha mãe."

O motoboy partiu. Eu fiquei na calçada. Acendi um cigarro de palha, depois apaguei. Minha mãe apareceu na porta, com uma xícara de café e um pedaço de bolo de milho que a vizinha da casa ao lado trouxe de presente.

— Tá tudo bem, meu filho?

— Tá, mãe. Agora tá.

Ela sentou do meu lado, puxou a ponta do pano de cabeça e ficou olhando a rua. Não disse mais nada.

Hoje eu acordo às cinco e meia da manhã. Ela já está na cozinha, passando café no pano. A mesa tem um pão doce de Campina Grande e uma manteiga derretendo. Não tem ninguém reclamando do jeito que ela mastiga. Não tem ninguém contando os passos dela pelo corredor. A casa é pequena, mas o fogão fica sempre aceso e a porta destrancada até tarde.

A Márcia ficou com o apartamento, com as amigas do salão. De vez em quando manda mensagem. Eu não abro mais.

Dona Sebastiana planta coentro no quintal, rega com a mangueira toda tarde antes da novela. De tarde, ouve Regina Casé na televisão e ri alto, com a dentadura torta escorregando um pouco pro lado. Eu fico na porta do quarto, com a caneca de café ainda quente na mão, só vendo ela rir daquele jeito.

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