Faço 68 anos hoje, dia 24 de agosto, e resolvi assar meu próprio bolo. Fubá com goiabada, do jeito que minha mãe fazia, quando eu era menino em Itabira. Ninguém veio. Nem viria — eu sei disso desde as sete da manhã, quando liguei o rádio na cozinha e a locutora falou que ia chover à tarde. Choveu.
Vou contar como cheguei aqui sozinho, numa casa de dois quartos em Itabira, com uma oficina mecânica fechada há três meses e um pai de 91 anos que jura, até hoje, que eu roubei o que era dele.
Chamo-me Osvaldo. Meu pai é o seu Anísio. A oficina — Auto Elétrica Anísio & Filho — foi aberta em 1979, quando eu tinha vinte e um anos e as mãos ainda sem calo. Trabalhei ali quarenta e três anos. Nunca fui sócio no papel. Era "ajuda do filho", era assim que ele apresentava para os clientes, mesmo depois que eu assumi sozinho a parte elétrica inteira, mesmo depois que troquei o letreiro de madeira por um de acrílico com luz de LED, pago do meu bolso, três mil e duzentos reais, guardei a nota fiscal até hoje.
Tenho uma irmã, a Marlene, quatro anos mais nova. Foi embora para Contagem aos vinte e três, casou, teve dois filhos, e nesses quarenta e cinco anos apareceu em Itabira nos Natais que dava, e olhe lá. Meu pai sempre falou dela como quem fala de uma santa que mora longe. De mim falava como quem fala do empregado.
A confusão começou há oito meses, num domingo de janeiro, quando meu pai me chamou na sala e disse que ia "colocar as coisas em ordem antes que fosse tarde". Falou isso olhando para o retrato da minha mãe na parede, não para mim. Disse que a oficina, o terreno dos fundos e a casa dele — não a minha, a dele, que fica a duas ruas da minha — iam ficar tudo para a Marlene, "porque ela nunca teve nada e você já tem seu canto".
Eu tinha 68% da oficina. Não por generosidade dele. Porque em 2011, quando ele quase perdeu o negócio numa dívida com o banco, fui eu que hipotequei minha própria casa — a mesma onde assei esse bolo hoje — para cobrir 87 mil reais. Ele assinou um documento reconhecendo minha participação societária. Isso está num cartório de Itabira, gaveta de contratos, ano 2011. Ele parece ter esquecido. Ou decidiu esquecer, o que dá na mesma.
Eu não disse nada naquele domingo. Fui para casa, abri a gaveta onde guardo papel importante — a mesma gaveta onde estão a nota do letreiro e a escritura da hipoteca — e reli o contrato trinta e cinco vezes essa semana. Trinta e cinco, contei.
Duas semanas depois, a Marlene apareceu. De carro novo, um Renault Kwid branco, dela mesma, financiado, ela fez questão de dizer o valor da parcela, seiscentos e oitenta reais, como quem mostra que está bem de vida. Sentou na cozinha do meu pai, tomou o café que ele mesmo coou, e falou, bem na minha frente, que "era hora de reconhecer quem realmente cuidou da família à distância". À distância. Ela disse essa palavra olhando pra mim, como se fosse elogio a si mesma.
Foi aí que o vizinho da esquina, seu Deraldo, que tem uma banca de jornal desde antes de eu nascer, me chamou no portão. Falou baixo, quase sem abrir a boca de tanto cuidado: "Osvaldo, sua irmã levou um homem de terno lá em casa do seu pai terça passada. Fiquei sabendo que é advogado, de Belo Horizonte." Terça. Dois dias antes daquele domingo do café. Ela já estava armando isso havia tempo.
Não corri para brigar. Fui ao cartório onde reconheceram minha assinatura em 2011 e pedi uma segunda via do contrato, autenticada. Paguia trinta e oito reais pela cópia. Fui também ao Instituto de Registro de Imóveis conferir a matrícula do terreno dos fundos, aquele que meu pai queria incluir na doação — e descobri que a matrícula ainda estava em nome do meu avô, morto em 1988, nunca inventariado. Ninguém, nem meu pai, podia doar aquilo sem resolver o inventário primeiro. Trinta e sete anos de terreno fantasma.
Levei os dois papéis — o contrato de 2011 e a certidão da matrícula — numa pasta azul que comprei na papelaria da praça, um real e cinquenta centavos, e marquei de ir à casa do meu pai numa quinta-feira à noite, sabendo que a Marlene ficava até tarde quando vinha "resolver as coisas".
Cheguei oito e vinte da noite. Os dois estavam na sala, o advogado de terno também, papéis espalhados na mesa de centro que foi da minha avó. Bati na porta com a mão fechada, três vezes, do jeito que eu batia quando era garoto e chegava atrasado do futebol de várzea.
Meu pai abriu a porta com aquela cara de quem já sabe que a visita não vai ser boa. Falei sem gritar, coloquei a pasta azul em cima dos papéis do advogado, por cima mesmo, e disse: "Antes de assinar qualquer coisa, o senhor precisa ler isso." Ele pegou o contrato de 2011, os olhos correndo pela página, e a mão dele começou a tremer segurando o papel — não sei se de raiva ou de vergonha, acho que nem ele sabia.
O advogado pegou a certidão da matrícula, leu, e falou pra Marlene, baixinho, mas eu ouvi: "Isso trava tudo. Sem inventário do avô, esse terreno não entra em nenhuma doação. E essa participação societária de 68%… doutor Anísio, o senhor não pode dispor de parte que juridicamente já não é sua."
A Marlene ficou em pé, com o celular na mão, tentando ligar pra alguém, acho que pro marido, e a voz saiu enrolada: "Isso não pode ser, papai, você disse que a oficina era sua." Meu pai não respondeu. Ficou olhando pro papel de 2011 como se estivesse vendo a própria letra pela primeira vez.
Não fiquei mais que quinze minutos. Não levantei a voz nenhuma vez. Peguei de volta minha pasta azul, deixei as cópias com o advogado — "pra constar", falei — e fui embora antes que meu pai dissesse qualquer coisa. Ele não disse.
Isso foi há seis meses. A oficina fechou porque, sem sócio administrando e sem eu voltando a trabalhar lá enquanto essa história não se resolvesse no cartório, ficou impossível manter as contas. Não fechei por birra. Fechei porque não tinha mais estrutura pra sustentar sozinho um lugar que meu próprio pai tentou tirar de mim na frente de um advogado que ele contratou escondido.
Meu pai não me liga. Passei no inventário do avô — entrei com o pedido eu mesmo, sozinho, gastei mil cento e noventa reais de custas e mais os honorários — porque enquanto aquele terreno ficasse travado, nada se resolvia de verdade pra ninguém, nem pra mim, nem pra ele, nem pra Marlene. Fiz questão de fazer certo, mesmo que ele nunca tivesse feito assim comigo.
Hoje, sentado na minha cozinha com o bolo de fubá esfriando na forma, ouço o carro da Marlene passar pela rua sem parar — reconheço o barulho do motor do Kwid daqui. Ela vai visitar meu pai todo sábado agora, isso o Deraldo me contou. Eu não vou mais. Não porque odeio meu pai. Porque não tenho mais que provar nada a um homem que só me viu depois que um advogado leu um papel em voz alta.
Corto uma fatia do bolo, sirvo num prato que era da minha mãe, e como sozinho, na mesa onde ela ainda tomava café comigo antes de morrer, em 2019. A chuva parou lá fora. O rádio, na bancada, está tocando uma música de Milton Nascimento que ela gostava. Não atendo o telefone quando ele toca, às oito e meia da noite, porque no visor está escrito "Pai", e eu ainda não sei — nem hoje, no meu aniversário — o que vou dizer quando finalmente atender.
