Larissa deixou a mala perto da porta e nem tirou o casaco.
— Ou essa mulher vai embora agora, ou amanhã você chega no trabalho e explica pra chefia por que está pedindo três dias sem receber. Escolha.
Thiago se encolheu perto da parede do hall, e entre ele e a sala se erguiam duas sacolas quadriculadas — daquelas que normalmente carregam batata de feira. Da cozinha do apartamento de três quartos deles em Niterói vinha cheiro de canja de galinha e tilintava uma concha numa panela estranha. Larissa tinha acabado de sair de um plantão de vinte e quatro horas na emergência — treze horas seguidas, três ambulâncias em sequência, uma delas com uma criança. Ela queria uma coisa só: ficar vinte minutos debaixo de água quente e deitar.
Em vez disso, na cozinha estava sentada a sogra dele, Regina, e ao lado dela — uma mulher robusta de moletom, instalada no banquinho como se morasse ali a vida inteira.
— Larissinha, finalmente! — Regina se levantou sem pensar em pedir desculpas. — Vem conhecer, Tânia, minha amiga do curso, chegou de Petrópolis pra consulta com o cirurgião vascular. E hotel hoje em dia é um absurdo — trezentos reais a diária, é roubo em pleno dia. Falei pra ela: que hotel nada, o Thiago tem apartamento de três quartos, tem espaço. Vai ficar com vocês uma semana.
Larissa ficou calada. Do apartamento dos vizinhos, do outro lado da parede, vinha o som abafado de uma televisão — reprise de algum programa de auditório — e esse som a irritou, sabe-se lá por quê, mais do que a voz da sogra.
Thiago conhecia a regra: estranhos em casa deles só com o consentimento dela, ainda mais agora, que já estavam no terceiro ano pagando um financiamento extra pela reforma depois que os vizinhos de cima os inundaram. Mas, em vez de dizer "não" pra mãe, ele só abriu os braços:
— Larissa, poxa, é uma pessoa que precisa de médico…
Naquele momento ela entendeu que o marido tinha acabado de escolher — e não fora ela.
O confronto aconteceu duas horas depois. Tânia, sem perguntar nada, reorganizou a roupa no armário do quarto da filha deles, uma menina do terceiro ano, e explicou que "faz mal pra criança dormir perto do aquecedor, resseca o ar". Quando Larissa pediu pra visitante não mexer nas coisas da menina, ela bufou e disse bem alto, pra casa inteira ouvir:
— Ai, que mulher nervosa você arrumou, Thiaguinho. Dá pra ver logo — carioca, acostumada a mandar. Regina, e você falou que eram gente hospitaleira.
Regina correu pra consolar a amiga e sussurrou pra nora que "não fizesse escândalo na frente dos outros". Larissa foi pro quarto e trancou a porta. Não conseguiu dormir: até uma e meia da madrugada vinha da cozinha o som da televisão e a conversa em alto e bom som de Tânia com alguém sobre pressão arterial e exames de sangue. Thiago dormiu no sofá-cama da sala e nem foi perguntar como ela estava.
De manhã descobriu-se que o shampoo caro dela, comprado na farmácia da Rua Miguel de Frias, tinha ido pela metade, e no fogão Tânia fritava um ovo na frigideira preferida de Larissa — aquela com revestimento cerâmico, que ela raspava com garfo de metal.
— Larissinha, fiz café da manhã — a visitante se virou, enxugando as mãos no pano de prato com as galinhas bordadas que a avó tinha dado de presente pra Larissa. — A louça você lava sozinha, viu, com esses produtos de vocês minha mão fica toda rachada. E compra maionese normal, porque na geladeira de vocês só tem folha verde e cottage.
— Tânia — Larissa falou baixo, tentando manter a voz firme. — Ninguém convidou você pra cá. Ou você segue as regras dessa casa, ou arruma as malas.
Regina invadiu a cozinha.
— Como é que você fala assim com uma pessoa mais velha? O pai dele e eu demos vinte mil reais pra esse apartamento! Eu também sou dona daqui, tanto quanto você!
Era mentira, e Larissa sabia disso. O apartamento ela e Thiago compraram com o dinheiro da venda da casa dos pais dela em São Gonçalo, mais economias do casal. Thiago tinha jurado que da mãe dele não tinham recebido nem um centavo.
— Sua mãe deu dinheiro? — ela se virou pro marido. — Responde direito.
Thiago corou, baixou os olhos.
— Ela deu… dois mil. Pras janelas. Eu usei em outra coisa — paguei uma dívida do cartão que eu não tinha te contado. E pra minha mãe eu disse que tinha investido no apartamento.
A dupla mentira a paralisou. Thiago não só tinha escondido dívidas — ele deixou a mãe achar, durante anos, que ela era sócia do apartamento deles.
— Que ótimo — ela disse baixinho. Se vestiu e saiu pro plantão sem dizer mais nada.
O dia todo Thiago ligou — ela não atendeu. Regina mandou mensagem: "Mulher normal não abandona marido por besteira". À noite Larissa voltou pro apartamento silencioso. Na cozinha estava Thiago, pálido, sozinho.
— Descobri que a Tânia nem precisava de consulta nenhuma — ele conseguiu dizer, com dificuldade. — Ela vendeu o apartamento em Petrópolis, deu o dinheiro pro filho pra uma oficina, e ele a expulsou de casa. Ela não tem pra onde ir. Minha mãe decidiu hospedar ela aqui. Por três meses. Talvez meio ano.
Uma conspiração pelas suas costas. Eles queriam transformar a casa deles num alojamento gratuito pra uma estranha, por tempo indeterminado.
— E você ficou calado.
— O que eu podia fazer, minha mãe chorando, dizendo que eu sou filho sem coração…
Larissa não discutiu. Foi pro quarto, pegou os documentos da filha, as coisas dela numa bolsa de viagem. Thiago foi atrás, pediu pra ela não decidir com pressa.
— Vou pra casa da minha irmã em São Gonçalo — ela disse já na porta. — Te dou três dias. Ou aqui moramos eu e a menina, ou você fica com sua mãe, a Tânia e suas dívidas — mas já divorciado. O apartamento está no meu nome, de antes do casamento, o advogado resolve tudo em uma semana.
Três dias ela passou na casa da irmã, dormindo no sofá, ouvindo o barulho dos ônibus na rua. No terceiro dia, Tânia mesma ligou — a voz completamente diferente, sem a arrogância de antes.
— Larissa, me desculpa. A Regina disse que o apartamento era dela mesmo, que vocês moravam ali só provisoriamente. Eu não quero ser motivo de separação. Já arrumei as malas, vou pra casa da minha sobrinha no interior.
Em casa esperava por Larissa uma surpresa mais séria ainda. Nem Tânia nem a sogra estavam no apartamento. Thiago estava sentado na cozinha, arrasado. Quando finalmente tomou coragem e exigiu que a mãe e a amiga fossem embora, Regina fez uma cena — arrancou a carteira dele da mesa e rasgou a folha com a foto, gritando que tinha criado "um sem coração". Na saída, levou o micro-ondas que eles mesmos tinham dado de presente e as cortinas da sala que ela mesma tinha pendurado, tempos atrás.
Thiago ergueu os olhos — pela primeira vez em anos não havia neles o medo de sempre da mãe, só cansaço e algo parecido com lucidez.
— Entendi tudo — ele disse. — Já está resolvendo a segunda via da carteira. A dívida com minha mãe vou pagar até o último centavo, vou pegar plantão aos sábados. Ela não vai mais se meter na nossa vida. Se você ainda quiser conversar comigo sobre isso.
Larissa foi calada pro quarto, tirou da gaveta da escrivaninha uma pasta com os documentos do apartamento — aquela com o contrato de compra, onde na linha do proprietário estava escrito só o nome dela. Abriu na mesa, na frente do marido.
— Vai ser assim — ela disse. — Segunda-feira eu vou ao cartório e faço pacto antenupcial retroativo, separação de bens. Eu e a menina ficamos nesse apartamento, de qualquer jeito. Você paga metade das contas e das compras — pelo cartão do salário, não em dinheiro, pra ficar tudo transparente. Pra Regina entrar aqui — só com meu consentimento, combinado antes e nunca mais que um dia. Se você quebrar isso uma vez só, entro com o pedido de divórcio no mesmo dia, e aí não vai ser mais ameaça.
Thiago concordou com a cabeça, sem discutir.
Uma semana depois ela trocou a fechadura da porta de entrada — não porque tivesse medo, mas porque a chave antiga estava com Regina desde que ela, "por segurança", tinha mandado fazer uma cópia ainda durante a reforma. Chaves novas Larissa deu só pro marido e pra filha. Tânia nunca mais ligou. E Regina, que encontrou Larissa por acaso perto do posto de saúde na Rua Marquês do Paraná, perguntou só uma coisa: "Vocês trocaram a fechadura mesmo?" — e ao ouvir "sim", virou as costas e foi embora, sem se despedir.
