Felicidade solitária em Maragogi

Beatriz tinha trinta e quatro anos e passou o ano inteiro guardando cada centavo que sobrava do salário de fisioterapeuta. Nada de manicure, nada de rodízio de pizza aos sábados com as colegas do consultório, nada de parcelar as botas de couro que via vitrine adentro na Rua Oscar Freire. Tudo isso para juntar onze mil e quatrocentos reais e finalmente conhecer as piscinas naturais de Maragogi com Rodrigo.

Eram dois anos de namoro, e pela primeira vez ela sentia firmeza no chão: ele trabalhava numa concessionária de carros em Osasco, não bebia demais, não sumia nos fins de semana, chegava em casa no horário que dizia que chegaria. Por isso essa viagem tinha peso. Não era só férias — era um teste silencioso, uma prova de que dava para construir vida com aquele homem.

Escolheram um resort com pé na areia, café da manhã com tapioca feita na hora, quarto com varanda voltada para o mar. Beatriz passava as noites revisando fotos do hotel no celular, imaginando o barulho da água batendo na pedra, o gosto de água de coco gelada, oito dias sem plantão, sem WhatsApp do trabalho, sem nada além dela e dele. Rodrigo também juntou, pegou hora extra aos sábados, cancelou o churrasco de aniversário do sogro. Quando as passagens ficaram prontas na tela do celular, ela quase não acreditou.

Na véspera do voo mal dormiu. Mala fechada, roteiro anotado no caderninho, coração acelerado. De manhã pegaram um Uber para Guarulhos, calados, cada um no seu canto do banco. Beatriz olhava o viaduto passando pela janela e pensava que dali a poucas horas o cinza de São Paulo ficaria para trás.

O check-in foi rápido, as malas despachadas, e na sala de embarque havia gente igual a eles: casais felizes de óculos escuros de férias, esperando a chamada para o portão. Beatriz levantou primeiro quando anunciaram o embarque. No avião, encontraram os assentos — fileira dezoito, ela na janela, Rodrigo ao lado. Faltava apertar o cinto e esperar a decolagem.

Foi então que ouviu, vindo do corredor:

— Rodriguinho, olha só quem apareceu aqui!

Beatriz virou o pescoço rápido demais. Ali, parada segurando a bolsa de mão contra o peito, estava dona Célia, mãe de Rodrigo. E ao lado dela, outra senhora de batom vermelho vivo e sorriso largo — a vizinha de infância, dona Marlene.

— Mãe? — Rodrigo baixou a revista de bordo e o rosto foi ficando vermelho por baixo da barba mal feita.

— Ah, filho, você é uma benção! Que menino generoso, hein, Marlene?

Dona Marlene já estava radiante:

— Sou eu, Marlene, amiga de infância da dona Célia. Obrigada por não esquecer de nós, viu, filho!

Beatriz se virou devagar para Rodrigo.

— O que é isso.

Ele fixou os olhos no carpete azul do corredor.

— Eu ia te contar antes.

— Contar o quê.

— Comprei passagem pra minha mãe e pra dona Marlene.

Alguma coisa despencou dentro dela, tipo elevador que perde o cabo. Ele tinha comprado passagem. Para a mãe e a amiga da mãe. Na viagem que era só deles dois.

— Você tá de sacanagem comigo.

Ele começou a se justificar: a mãe pediu, disse que sonhava com esse mar desde jovem, que a aposentadoria era curta, que outra chance dessas não ia aparecer nunca mais. Ele não conseguiu dizer não.

— E eu? — a voz dela tremeu. — Eu também trabalhei o ano inteiro pra isso. Nós dois. Você e eu.

— Bia, a gente continua junto, ué — ele disse. — Só que agora vai ser em família.

Dona Célia se inclinou por cima do braço da poltrona, do outro lado do corredor:

— A gente nem vai atrapalhar vocês! Nosso assento é ali na dezenove, quase do lado!

— Isso mesmo — completou dona Marlene. — Casal jovem precisa de espaço. A gente só passa de vez em quando pra dar um oi. Ah, e nos passeios em grupo, claro.

Beatriz virou o rosto para a janelinha. Queria gritar, mas a garganta fechou de um jeito que nenhuma palavra saía. O voo levou três horas até Maceió, e ela não abriu a boca. Rodrigo tentou puxar assunto duas vezes; ela olhava para as nuvens e não respondia. Uma frase só girava na cabeça: um ano inteiro de sonho, de planilha de gastos no celular, de sonhos de tapioca na varanda — desmontado antes mesmo do avião decolar.

No resort, pelo menos havia dois quartos separados: um para ela e Rodrigo, outro para dona Célia e dona Marlene. Foi o único consolo. Quando entrou no quarto, tudo estava igual às fotos — cama de casal, rede na varanda, ar-condicionado zunindo baixinho —, mas a felicidade não veio junto. Ela sentou na beirada da cama, e Rodrigo se aproximou:

— A gente precisa conversar.

— Sobre o quê.

— Percebi que você tá chateada…

— Chateada, Rodrigo? Você roubou meu sonho. Nosso sonho.

Ele jurou que não tinha roubado nada, que continuavam juntos do mesmo jeito. Mas Beatriz já sabia: aquilo não seria lua de mel. Seria férias com sogra e a amiga da sogra.

Batida na porta. Sem esperar resposta, dona Célia entrou:

— Rodriguinho, o ar daqui não tá gelando! Vem dar uma olhada?

— Já vou, mãe — ele saiu com cara de culpado.

Beatriz ficou sozinha no quarto que sonhara o ano todo, e pela primeira vez pensou em voltar pra São Paulo.

Dali em diante foi exatamente o que ela temia. No café da manhã, dona Célia e dona Marlene já estavam esperando na mesa, acenando: "Rodriguinho, aqui, ó!" Na praia, junto. No passeio de buggy pelas piscinas naturais, junto. Cada refeição, cada saída do hotel — as quatro cadeiras sempre ocupadas pelas mesmas quatro pessoas. Rodrigo levava ovo mexido, suco de acerola, café coado pra elas. Se a mãe reclamava do tempero, ele ia atrás de outro prato. Se ela queria ir na lojinha de artesanato, ele ia junto. Se sentia calor, ele procurava guarda-sol. Se pedia água de coco, ele corria atrás.

No quarto dia, dona Célia quis fazer o passeio de escuna até a Piscina do Paraíso, com direito a mergulho guiado — duzentos e oitenta reais por pessoa. Mil cento e vinte reais pelas quatro passagens, um gasto que não estava no planejamento dos dois.

Rodrigo tentou argumentar, mas a mãe insistiu:

— A gente tá de férias! Vai economizar aqui?

Dona Marlene apoiou na hora:

— Sua mãe também merece um pouco de cultura, ué!

Rodrigo suspirou e concordou. Nem perguntou pra Beatriz.

No passeio fez um calor de rachar, lotado de gente, e as duas senhoras reclamaram o tempo todo: sede, cansaço, sol demais. Rodrigo ficava circulando em volta delas enquanto Beatriz andava atrás, calada, tirando foto do recife de coral sem dizer palavra.

À noite dona Célia quis um restaurante de frutos do mar.

— Rodriguinho, vamos! Dizem que a moqueca daqui é maravilhosa!

— Mãe, é caro — ele tentou de novo.

— Uma vez na vida a gente pode se dar ao luxo!

No restaurante, dona Célia pediu lagosta grelhada, dona Marlene pediu camarão na moranga. Beatriz pegou a salada mais barata do cardápio. Quando a conta chegou em quatrocentos e noventa reais, Rodrigo empalideceu, mas pagou. Depois vieram as lojinhas de suvenir — ímãs de geladeira, redes, colares de conchinha — e de novo ele tirou a carteira.

À noite Beatriz ficou sentada na rede da varanda tentando não explodir. Rodrigo sentou ao lado, com cuidado.

— Você tá brava?

— Não é raiva, Rodrigo. É decepção.

Ela falou tudo: que não tinham ficado sozinhos nenhuma vez, que em vez de romance viraram babás de duas mulheres adultas, que ele gastou mais com as duas do que com a própria viagem deles.

— Você tá exagerando — ele disse.

Foi aí que ela não segurou mais.

— Exagerando?! Eu passei o ano inteiro juntando! Me privei de tudo! E você trouxe sua mãe e a amiga dela pra cá sem nem me avisar!

— Ué, elas são minha família…

— E eu sou o quê pra você?

— Você é minha namorada.

— Namorada que você nem contou que ia trazer mais duas pessoas!

— Tive medo que você não deixasse…

— Claro que eu não deixaria! Porque essa viagem era pra ser nossa!

Nesse momento a porta abriu. Dona Célia parada na soleira.

— Rodrigo, o que tá acontecendo aqui? Por que ela tá gritando com você?

Beatriz tentou se controlar, mas já não conseguia mais. Disse que estava exausta de ver as férias virarem plantão de atendimento pra sogra e pra amiga da sogra. Dona Célia ficou vermelha.

— Rodrigo é meu filho! Ele tem obrigação de cuidar de mim!

— Eu achei que a gente ia viajar só nós dois — respondeu Beatriz. — Não com a senhora, sua amiga e as exigências de vocês duas.

Silêncio pesado no quarto. Rodrigo continuava parado, pálido, sem se mexer.

— Quem você pensa que é pra ficar dando ordem pro meu filho? — soltou dona Célia.

— Sou namorada dele.

— Só namorada! Nem é esposa ainda e já chega exigindo tanta coisa!

Na porta apareceu dona Marlene, se metendo também. Beatriz já não segurava as lágrimas. Falou que aquela viagem virou um pesadelo, que não estava descansando, estava aguentando.

— Então não aguenta! — disparou a sogra. — Vai descansar sozinha!

Beatriz travou. E de repente entendeu: aquilo era exatamente a saída.

— Ótima ideia — disse, virando para Rodrigo. — É exatamente isso que vou fazer.

— O quê? — ele olhava sem entender.

— O resto da viagem eu passo separada. Vou trocar de quarto.

Ela pegou a mala e começou a jogar as roupas dentro, sem dobrar nada.

— Bia, isso é loucura!

— Loucura é aguentar sua mãe e a amiga dela por mais três dias.

Dona Célia bufou com desprezo:

— Pois vai! Sem você é até melhor pra gente!

Beatriz fechou o zíper da mala, pegou a bolsa e olhou pra Rodrigo pela última vez.

— Fica com ela. Já que ela é mais importante.

Abriu a porta e saiu sem olhar pra trás. Rodrigo deu um passo atrás dela, mas a mão da mãe segurou seu braço com força.

— Nem pensar, Rodriguinho. Deixa ela ir pra onde quiser.

Ele ficou parado. Olhou pra mãe. Olhou pra porta fechada. E não foi atrás.

Beatriz conseguiu trocar de quarto ainda naquela noite — um solteiro, menor, sem varanda, mas com vista lateral pro mar. Pagou a diferença com o cartão de crédito e não pensou duas vezes. Nos quatro dias seguintes fez tudo que tinha planejado sozinha: mergulhou nas piscinas naturais, comeu tapioca de queijo coalho sentada na areia, leu um livro inteiro numa cadeira de praia sem ninguém chamando seu nome. Cruzou com Rodrigo duas vezes no café da manhã — ele sentado entre a mãe e dona Marlene, os três em silêncio, sem conseguir olhar pra ela.

De volta a São Paulo, no aeroporto, ele tentou conversar enquanto esperavam as malas na esteira.

— Bia, dá pra gente conversar em paz? Eu errei, eu sei.

Ela pegou a mala assim que ela apareceu na esteira.

— Não precisa mais, Rodrigo.

Um mês depois, Beatriz foi até o cartório da Vila Mariana e retirou o nome dele da conta conjunta que tinham aberto juntos para "o apartamento futuro" — vinte e três mil reais guardados em dois anos, metade dela, metade dele. Transferiu a parte dele numa tarde de terça-feira, com o aplicativo do banco aberto na mesa da cozinha, e mandou uma mensagem só com o comprovante: *Fica quites.* Fechou a conta no dia seguinte e abriu uma nova, só no nome dela, pra guardar de novo — dessa vez sem pressa, sem prazo, sem ninguém mais pra caber na viagem.

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Odissea
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