Regina vende tapetes na Praça da República enquanto Osvaldo busca trinta mil reais para salvar Luana

Meu nome é Regina, tenho cinquenta e oito anos e trabalho há dezenove anos na feira de artesanato da Praça da República, em Belo Horizonte, todo primeiro sábado do mês. Vendo tapetes de crochê feitos por mim mesma, mas essa história não é sobre os meus tapetes. É sobre a banca do lado, a do seu Osvaldo, e sobre um sábado de julho que eu não vou esquecer enquanto viver.

Seu Osvaldo tem setenta e sete anos e cria a neta, a Luana, desde que ela nasceu. Todo mundo na feira conhece a história: a mãe da menina morreu no parto, o pai sumiu duas semanas depois e nunca mais apareceu, nem em foto. Osvaldo criou a neta sozinho, trabalhando de porteiro num prédio da Savassi até se aposentar, e depois vendendo o que dava — cinto de couro, chaveiro, essas coisas — pra completar a aposentadoria, que mal passa de um salário mínimo e meio.

Faz um ano, aconteceu a tragédia. A Luana estava voltando da escola na garupa da bicicleta de uma amiga, quando um motorista bêbado, num Fiat Uno branco todo amassado na lateral, subiu na calçada. A amiga saiu com o braço quebrado. A Luana ficou três semanas internada na Santa Casa e acordou sem sentir as pernas. O laudo dizia lesão medular, chance pequena de recuperação, e um tratamento de fisioterapia intensiva que, segundo o próprio médico falou pro Osvaldo bem sem rodeios, "não sai por menos de trinta mil reais, seu Osvaldo, e isso é só o começo."

O plano de saúde dele, básico, de aposentado, cobriu umas oito sessões e disse que tava bom. Eu lembro do dia que ele me contou isso, sentado na cadeira de plástico da minha banca, com um cafezinho do Zé do carrinho esfriando na mão, e o barulho de um caminhão de gás passando lá longe com aquele apito característico. Ele não chorou. Só ficou olhando pro chão um tempão, mexendo a colherzinha sem parar de mexer.

Foi aí que ele teve a ideia das mantas.

Osvaldo sempre soube costurar — coisa que aprendeu com a falecida esposa, dona Iracema, que fazia enxoval de bebê pra vender antes de morrer de câncer, uns quinze anos atrás. Ele desencavou a máquina de costurar dela, uma Singer preta que ficava largada no quartinho de despejo, e começou a fazer mantas de bebê, retalhos coloridos, quadriculado, algumas com bordado de ursinho. Trabalhava dia inteiro num mercadinho perto de casa, fazendo dois turnos, e à noite, depois de dar banho e jantar pra Luana, sentava na máquina até quase uma hora da manhã. Eu sei porque ele me contava, e porque uma vez cheguei mais cedo na feira e vi as olheiras dele, roxas feito berinjela.

Todo primeiro sábado, ele montava a banca do lado da minha, com a Luana na cadeira de rodas ao seu lado. Ela ajudava no que dava: separava tecido por cor, dobrava manta pronta, colava etiqueta com preço escrito à mão, anotava numa cadernetinha quanto tinham vendido. Uma vez ela me disse, baixinho, enquanto o avô atendia um cliente: "Dona Regina, eu queria que ele parasse. Ele tá se acabando por minha causa." Eu não soube o que responder. Só passei a mão no cabelo dela, que tinha cheiro de xampu de coco, e fiquei quieta.

No sábado passado, era um dia comum de feira, sol forte, aquele cheiro de pastel fritando na barraca do fim da rua se misturando com incenso que um rapaz vendia perto da fonte. Eu tava dobrando um tapete quando vi o homem chegando.

Devia ter uns quarenta e poucos anos. Colete de couro preto, coturno pesado, uma bandana escura amarrada na cabeça, os dois braços cheios de tatuagem — inclusive uma, no antebraço direito, que parecia uma data, mas de longe eu não consegui ler. Lá atrás, encostada no meio-fio, uma Harley grande, prateada, brilhando debaixo do sol.

Ele veio direto pra banca do Osvaldo. Parou na nossa frente e ficou examinando as mantas, sem tocar em nenhuma, sem falar nada. Osvaldo, do jeito educado que é, cumprimentou e perguntou se ele precisava de ajuda pra escolher alguma.

O homem não respondeu de imediato. Levantou o rosto e ficou encarando o Osvaldo com uma expressão que mudou na hora — ficou dura, fechada, como quem finalmente encontra depois de muito tempo o que andava procurando. Enfiou a mão dentro do colete e tirou um envelope grosso, meio amassado, e estendeu por cima da banca.

— É você — falou.

Osvaldo travou as mãos em cima do tecido que segurava.

— Eu sei que é você — continuou o motoqueiro. — Procuro há vinte anos. Sei exatamente o que você fez. Não vai enganar mais ninguém.

Minhas mãos começaram a tremer segurando o tapete que eu tava dobrando. Olhei pro Osvaldo e vi que as mãos dele também tremiam. Nenhum dos dois se mexeu por uns bons segundos — parecia que o barulho da feira inteira tinha sumido, só ficou o zumbido de uma moto passando lá na avenida.

No fim, Osvaldo pegou o envelope e abriu com cuidado. No instante em que viu o que tinha dentro, a cor sumiu do rosto dele inteiro. Os olhos arregalaram e ele olhou de novo pro motoqueiro.

— Não — falou baixo, quase sem voz. — É você mesmo? Não pode ser.

Foi aí que o choque virou uma coisa que eu nunca tinha visto nele em dezenove anos de feira: raiva. Ele apertou o que tava dentro do envelope na mão e gritou, com a voz rachando:

— COMO VOCÊ TEM CORAGEM?

A Luana agarrou a roda da cadeira com as duas mãos. Eu dei um passo pra frente, sem saber direito se ia separar uma briga ou só ficar ali plantada.

O motoqueiro não recuou. Levantou as duas mãos, palma pra fora, e falou baixo, quase manso:

— Calma, seu Osvaldo. Deixa eu explicar. Meu nome é Ronaldo. Eu sou filho do Marcos.

O nome caiu na roda que a gente formou sem perceber ao redor da banca — dois curiosos que passavam pararam pra ver — como uma pedra numa poça parada. Osvaldo ficou olhando o papel na mão. Eu consegui ver, de lado: era uma foto velha, cantos gastos, de um bebê no colo de uma mulher jovem que eu não conhecia.

— O Marcos era meu pai — continuou Ronaldo. — E era irmão da sua mulher, dona Iracema. Meu tio, seu Osvaldo. Ele fugiu quando eu tinha três anos, deixou minha mãe sozinha, e ela sempre falou que o senhor tinha ajudado ele a fugir, escondido dinheiro dele, ajudado a sumir. Ela morreu odiando o senhor. Eu cresci ouvindo essa história vinte anos, jurando que ia te achar um dia e cobrar satisfação.

Osvaldo balançou a cabeça, e quando falou a voz saiu embargada.

— Eu não ajudei seu pai a fugir de ninguém, meu filho. Eu ajudei ele a fugir de uma dívida de jogo que ia custar a vida dele. Coloquei dinheiro do meu bolso, dinheiro que era pra ser a entrada de um apartamento meu e da Iracema, pra pagar um agiota que tinha jurado matar o Marcos numa noite em Contagem. Sua mãe nunca soube dessa parte. Só soube que o dinheiro sumiu e o Marcos foi embora.

O envelope, veio a explicar Ronaldo com a voz já não tão firme, chegou até ele um mês atrás, quando a mãe morreu e ele, arrumando as coisas dela, achou uma carta que o Marcos tinha mandado havia muitos anos, antes de morrer — pedindo desculpa e contando, enfim, a verdade inteira: sobre a dívida, sobre o dinheiro do Osvaldo, sobre a vergonha que sentiu a vida toda de nunca ter voltado pra agradecer ou pagar de volta. A carta trazia até o endereço antigo, o mesmo bairro, e foi assim que Ronaldo, depois de rodar semanas de moto perguntando de banca em banca, feira em feira, chegou até aquele sábado.

— Eu vim te encarar — disse Ronaldo, olhando agora pra Luana, que segurava firme os aros da cadeira. — Vim descontar vinte anos de raiva. Mas… o senhor não fez o que eu pensei.

Osvaldo respirou fundo, e alguma coisa naquele corpo cansado pareceu ceder de vez, como um nó que solta depois de anos apertado.

— Seu pai me devia trezentos mil cruzeiros da época, um dinheiro que hoje não vale nada, mas que na hora quebrou minha vida e da Iracema. A gente nunca comprou aquele apartamento. Morou de aluguel até ela morrer. Mas eu não me arrependo. Ele era irmão da minha mulher. A gente faz o que faz por família.

Ficou um silêncio esquisito ali, só cortado pelo grito de um vendedor de picolé em algum canto da praça. Ronaldo abaixou os olhos, olhou pra Luana, depois pra pilha de mantas coloridas empilhadas na banca, e perguntou, meio sem jeito, quanto custava cada uma.

— Quarenta e cinco reais — respondeu Luana, sem hesitar, batendo o dedo na cadernetinha de anotação.

Ronaldo comprou seis mantas ali mesmo, pagou em dinheiro, e antes de ir embora perguntou pra que era o dinheiro. Osvaldo contou, sem esconder nada, sobre o acidente, a lesão, o tratamento que faltava.

Foi aí que Ronaldo tirou do bolso do colete o celular, mexeu um pouco, e mostrou a tela pro Osvaldo: um aplicativo de banco aberto, saldo visível, um número que eu não deveria ter visto mas vi de relance — quatro dígitos antes da vírgula.

— Meu pai morreu há dois anos, num acidente de trabalho numa obra em Uberlândia, e me deixou um seguro de vida — falou Ronaldo. — O dinheiro ficou parado esse tempo todo. Eu nunca soube o que fazer com ele. Parecia dinheiro sujo, dinheiro que eu não merecia. Só depois que achei a carta da minha mãe, mês passado, entendi de onde vinha a dívida de verdade. Acho que agora eu sei pra que serve.

No mês seguinte — e isso eu vi com meus próprios olhos, porque fui junto no dia — Ronaldo apareceu na clínica de reabilitação da Luana, no bairro Santo Agostinho, com uma transferência já feita: dezoito mil reais, o suficiente pra fechar os seis meses de fisioterapia intensiva que o médico tinha pedido, mais um aparelho ortopédico importado que o convênio nunca ia cobrir.

Osvaldo não guardou mais uma máquina de costurar acesa até de madrugada — pelo menos não pra pagar tratamento. Ele continuou fazendo as mantas, isso sim, porque descobriu que gostava, e porque a Luana gostava de ajudar. Mas na sexta-feira seguinte àquele sábado, ele foi até o cartório da Praça Sete e fez uma coisa que nunca tinha feito em setenta e sete anos de vida: abriu uma poupança em nome da neta, separada da dele, com os primeiros mil e duzentos reais das vendas do mês, junto com o número da conta escrito à caneta num caderninho escolar que ele guarda dentro da bolsa de costura, do lado da tesoura e das linhas.

Eu vi esse caderninho um sábado desses. Na primeira página, com a letra tremida dele, estava escrito: "Pra Luana andar de novo. E pra ela nunca precisar de banca de feira pra isso."

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