A Última Noite do Gato Preto

Fazia dois anos e três dias que o coração de Enrico havia parado enquanto ele conferia o nível da laje na obra do 18º andar. Um aneurisma silencioso, disseram os médicos. Ele nem chegou a ver o concreto secar. Deixou para trás a mulher, Rafaela, dois filhos que já estavam na faculdade, e um gato velho — o Zeus.

Zeus era daqueles gatos que mais parecem uma almofada velha: preto, pesado, com uma mancha branca no peito que mais lembrava um babador sujo. Passava os dias na poltrona de couro falsificado da sala, aquela que tinha o formato exato das costas de Enrico. Ninguém mais sentava ali. Nem por respeito. Era porque o gato não deixava.

Rafaela se virou. Trabalhava das sete da manhã às seis da tarde numa loja de material de construção no centro de Juiz de Fora e, quando chegava em casa, ainda fazia quentinhas para vender na vizinhança. O cansaço era tanto que, quando deitava, o corpo doía como se tivesse levado uma surra. Mas a cabeça não desligava. Era ali, no escuro do quarto, que a saudade vinha com tudo. Ela revirava os lençóis pensando no que teria acontecido se ele tivesse recusado aquela obra. Se tivessem ido para a praia naquele fim de semana. Se, se, se.

Na noite em que completou exatos dois anos, Rafaela se deitou com uma enxaqueca latejante. A casa estava em silêncio, os filhos estavam em festas universitárias. Ela apagou a luz e sentiu um peso se ajeitar ao lado do seu travesseiro. Era Zeus. O gato nunca dormia na cama. Ele ronronava como um motor de geladeira velha, um som áspero e contínuo, e amassava o edredom com as patas, bem onde Enrico costumava apoiar o braço. Rafaela fechou os olhos.

E então ela o viu. Enrico estava sentado no banco da praça da Estação, perto da fonte que vivia seca, com o jornal dobrado no colo e um sorriso calmo no rosto. Ela sentiu a textura áspera da calça jeans dele sob seus dedos. Sentiu o cheiro de cimento e menta que nunca saía da sua camisa. Conversaram a noite inteira. Ele contou que a laje tinha ficado torta, mas que o prédio era seguro. Ela contou que a geladeira tinha quebrado duas vezes. Coisas bestas. Coisas que doíam de tão reais.

Quando o despertador tocou, Rafaela acordou com o rosto inchado de lágrimas e uma paz que não sentia desde o dia do enterro. Zeus ainda estava lá, imóvel, os olhos verdes a encarando como se soubesse de algo.

O ritual se repetiu na noite seguinte. E na outra. E na outra. Ela já deitava na cama esperando o bichano. Zeus vinha, se enroscava na curva do seu ombro, e Enrico aparecia. Às vezes, estavam na antiga quitinete onde moraram no primeiro ano de casados, brigando por causa do chuveiro queimado. Outras vezes, estavam no baile da terceira idade da associação do bairro, dançando um bolero arrastado. Rafaela já nem se importava com as olheiras fundas que surgiam de tanta conversa noturna. Ela só queria dormir para encontrá-lo.

Numa madrugada de quarta-feira, depois de mostrar para ele as fotos da formatura da filha mais nova no celular do sonho, ela notou que Zeus, na cama real, estava mais pesado. Mais quieto. Não ronronava mais com tanta força. Ela comprou sachês caros, tentou fazer carinho, mas o gato só a ignorava com a dignidade de um senhor aposentado. Ele comia um pouco e voltava para a poltrona. A função dele não era ser amado. Era ser a ponte.

Assim se passaram trinta noites.

Na trigésima primeira noite, o sonho mudou. Não havia paisagens. Apenas uma penumbra confortável, como se estivessem debaixo de um cobertor. Enrico segurou a mão dela com firmeza. Sua voz estava serena, mas com um peso definitivo que cortou o ar.

— Hoje foi a última vez, Rafa.

Ela sentiu o coração despencar antes mesmo de entender as palavras.

— Não… — ela balbuciou, apertando os dedos nos dele. — Como assim, última vez?

— Já deu, meu amor. Dois anos. O Zeus trouxe você até aqui, mas eu não posso mais voltar. E você também não. Você está se agarrando num eco, e está deixando a sua vida passar.

Rafaela tentou gritar, mas o som não saía. Tentou agarrá-lo, mas a mão dela atravessava o jeans como se fosse fumaça. Ele sorriu, aquele mesmo sorriso torto de quando ele a pedia para passar o café.

— Vou ficar bem. E você vai ficar também. Promete que vai começar a viver amanhã? Vende a loja. Viaja. Briga com a síndica. Faz qualquer coisa, mas não fica parada.

O despertador tocou. Duas notas agudas e irritantes. Rafaela abriu os olhos num sobressalto violento. A luz da manhã entrava pela persiana como lâminas. O lugar onde Zeus dormia estava vazio. Sobre o lençol, apenas alguns pelos pretos e um silêncio opressor.

Ela correu para a sala. A poltrona de couro estava vazia. Zeus estava deitado no chão, ao lado dos chinelos de Enrico que ninguém tivera coragem de jogar fora. O gato olhou para ela com aqueles olhos que pareciam duas groselhas brilhantes e soltou um miado fraco, um chiado, como se o motor interno tivesse finalmente se desgastado.

Rafaela se ajoelhou no chão frio da sala, sem se importar com o pó. Alisou o dorso do gato. Ele ronronou pela última vez, um som quase imperceptível. Deu duas lambidas no próprio bigode, e morreu. Simplesmente apagou, sem um gemido, sem um espasmo.

Ficou um vazio. Mas um vazio estranhamente limpo, como se a tempestade tivesse lavado a calçada.

Ela não contou para ninguém. Não haveria palavras para explicar que um gato preto e velho, que não fazia nada além de dormir e soltar pelo, tinha sido o fio condutor entre mundos. Ligou para o filho apenas para avisar do ocorrido, enterraram Zeus numa caixa de sapatos no pé da jabuticabeira do quintal, e a vida seguiu.

Na semana seguinte, Rafaela acordou com a campainha. Era o seu João, o corretor. Ele estava com a pasta debaixo do braço e um olhar ansioso.

— Dona Rafaela, a proposta que a senhora ignorou há três meses ainda está de pé. Oitocentos e setenta mil. Os compradores querem transformar a sua loja numa dessas cafeterias gourmet. Se segurar mais, eles desistem.

Ela respirou fundo. Olhou para a poltrona vazia na sala. O sol daquela manhã batia exatamente no encosto, revelando todas as rachaduras do couro falso. Era só uma poltrona velha. Era só um objeto. Pegou o telefone e respondeu com uma calma que surpreendeu a si mesma:

— Fechamos, seu João. Mas preciso que o senhor me ajude com um outro negócio. Essa casa… ela também está à venda.

O corretor arregalou os olhos, mas Rafaela já havia se virado. Foi até a cozinha, encheu uma caneca com o resto do café frio, e pegou um panfleto que estava no ímã da geladeira havia um ano: “Viagens para a Serra da Mantiqueira — Pousadas e Caminhos”. Ela desamassou o papel, limpou uma mancha de molho de tomate que escondia o número do telefone, e discou. O chiado da ligação soou como um ronronar distante, e ela não conseguiu evitar o sorriso triste nos lábios.

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Odissea
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