O anúncio tinha nove palavras e nenhuma foto de rosto: "Procuro companheira que saiba limpar peixe, cavar minhoca e tenha um barco a motor. Foto do barco é obrigatória." Quem escreveu foi Elizeu Marques, sessenta e um anos, aposentado da Capitania dos Portos, morador de Cabo Frio havia trinta e dois anos. Ele postou no grupo de Facebook "Pescadores de Búzios e Região" às sete da manhã de uma terça-feira, tomando café requentado na varanda, com o barulho da geladeira velha cortando o silêncio a cada dois minutos.
A resposta que mudou tudo veio de Neuza Bittencourt, cinquenta e sete anos, viúva havia quatro, dona de uma peixaria pequena no mercado municipal. Ela mandou uma foto do seu barco — uma voadeira branca de seis metros, motor Yamaha 40, comprada com o seguro do marido — e escreveu só isso: "Aqui está. Limpo peixe desde os doze anos. Minhoca eu cavo, mas prefiro camarão vivo pra isca. Quando você quer ir pescar?"
Elizeu leu a mensagem cinco vezes. Depois foi até o quintal, arrancou umas ervas-cidreiras que não precisavam ser arrancadas, e voltou pro celular pra responder.
Eles se encontraram numa sexta-feira, no cais perto do Canal de Itajuru. Neuza chegou vestindo bota de borracha e trazendo uma marmita com moqueca de peixe frito, porque, segundo ela disse depois, "não ia confiar em homem que nem sabe se vai gostar de mim pra fazer o almoço." Elizeu levou duas garrafas de guaraná Dolly e um isopor com gelo. Não houve flores. Houve, isso sim, quarenta minutos discutindo se anzol número 8 era melhor que o 10 pra robalo, e Neuza ganhou a discussão porque tinha razão.
Namoraram sete meses pescando toda semana. Casaram numa quinta-feira de manhã, no cartório, com testemunhas trazidas do mercado municipal — o Seu Toinho, que vendia lula na banca ao lado da dela, e dona Célia, que fazia unha pra metade das mulheres de Cabo Frio. A festa foi uma feijoada no quintal de Elizeu, com um alto-falante tocando pagode baixinho e um cachorro vira-lata do vizinho, o Bolinha, que ficou rondando a mesa a tarde inteira esperando um osso.
O problema começou onze meses depois do casamento, quando a filha de Elizeu, Patrícia, trinta e quatro anos, apareceu num domingo sem avisar. Patrícia morava em Niterói, trabalhava numa clínica de estética, e não tinha ido ao casamento do pai porque, alegou, "trabalho não deixou." A visita de agora tinha outro motivo, e Neuza percebeu antes de a moça sentar no sofá: Patrícia trouxera uma pasta azul.
Dentro da pasta estava uma minuta de doação. A casa onde Elizeu morava — construída por ele mesmo, tijolo por tijolo, ao longo de vinte anos, e onde agora Neuza também vivia — devia ser transferida para o nome de Patrícia "pra facilitar as coisas, pai, você sabe, com sua idade, é melhor já deixar resolvido." Elizeu escutou calado, girando o copo de suco na mão. Neuza não disse nada na hora. Foi pra cozinha, lavou três pratos que já estavam limpos, e ficou olhando pela janela o barco encostado no fundo do quintal, coberto de lona.
À noite, depois que Patrícia foi embora sem levar a assinatura que queria, Elizeu sentou na cama e falou baixo, quase pedindo desculpa: "Ela ficou brava desde que casamos. Acha que você vai ficar com tudo se alguma coisa acontecer comigo." Neuza tirou os brincos, guardou na caixinha de madeira, e só então respondeu: "E o que você acha?" Ele não respondeu. Foi a primeira noite em quinze meses de casamento que os dois dormiram de costas um pro outro.
Nas semanas seguintes, Patrícia voltou duas vezes, sempre nos horários em que sabia que Neuza estava na peixaria. Numa dessas visitas, Elizeu quase assinou. A caneta já estava na mão quando ele parou, olhou pra estante da sala — onde tinha, ao lado da foto de casamento com Neuza, um porta-retrato antigo da falecida mãe de Patrícia — e disse que precisava pensar mais. Patrícia saiu batendo a porta com força suficiente pra derrubar um calendário pregado na parede da cozinha.
Foi Neuza quem descobriu, sem querer, o resto da história. Precisando de um documento antigo, abriu uma gaveta da escrivaninha de Elizeu e achou, debaixo de contas de luz vencidas, um contrato de aluguel do apartamento onde Patrícia morava em Niterói — pago integralmente por Elizeu havia dois anos, mil e oitocentos reais por mês, sem que a filha soubesse que o pai sabia dizer não pra ninguém, menos pra ela.
Neuza não gritou, não fez cena. Marcou uma consulta com um advogado no centro de Cabo Frio, na rua principal perto da igreja matriz, e foi sozinha numa quarta de manhã, enquanto Elizeu estava na oficina consertando o motor do barco. Voltou com uma pasta própria — cinza, não azul — contendo um pedido de escritura de usufruto vitalício em nome dela sobre a casa, documento que não tirava a propriedade de Elizeu nem beneficiava definitivamente ninguém além de garantir que, enquanto ela vivesse, ninguém a botaria pra fora daquela casa que ela também tinha ajudado a pagar, com o dinheiro da venda do próprio apartamento que possuía antes do casamento.
Colocou a pasta em cima da mesa da cozinha, na frente de Elizeu, numa noite de sábado, com a moqueca ainda fumegando na panela. "Não estou pedindo nada que não seja meu por direito de estar aqui contigo. Você decide o resto com sua filha. Mas o usufruto, ou eu vou embora amanhã de manhã, com o barco, porque o barco é meu."
Elizeu leu o documento devagar, sem pressa, com os óculos escorregando no nariz. Assinou na semana seguinte, no cartório, com Seu Toinho de testemunha outra vez. Quando Patrícia soube, ligou gritando, disse que a madrasta tinha "roubado a herança dela." Neuza pegou o telefone das mãos de Elizeu, atendeu com calma, e falou uma única frase antes de desligar: "Sua herança continua intacta, Patrícia. Só que agora ela vem com uma condição: sua herança respeita o direito de eu morrer na minha própria casa."
Patrícia não apareceu mais nos domingos seguintes. Voltou seis meses depois, no aniversário de sessenta e dois anos de Elizeu, trazendo um bolo comprado de padaria e um pedido de desculpa mastigado, sem muita convicção, mas real. Neuza serviu café pra ela como sempre serviu, sem menção ao contrato, sem revanche na voz.
No fim daquela tarde, os dois — Elizeu e Neuza — ficaram sentados no cais atrás de casa, vendo o sol descer atrás do canal, o Bolinha do vizinho deitado entre os pés dos dois como se fosse dono da casa também. Neuza tinha as mãos cheirando a escama de peixe, porque tinha limpado quatro robalos naquela manhã pra vender. Elizeu perguntou se ela tinha arrependimento de alguma coisa. Ela olhou pro barco encostado no cais, ainda com o nome pintado no casco — "Segunda Chance" — e respondeu que não, que a única coisa que faria diferente era ter cavado minhoca com ele antes, no primeiro fim de semana, em vez de levar camarão pronto.
