Felicidade pura
Segunda-feira, começo de fevereiro, e eu pisando pela primeira vez naquela sala da escola municipal de Serra Fria, um distrito a quarenta minutos de Caxias do Sul. O mato ainda molhado de orvalho lá fora, cheiro de terra e de fogão a lenha vindo do refeitório. Vinte e sete alunos do sexto ano, todos calados demais para ser natural.
Fui até a mesa. Ia sentar. Percebi tarde demais que o assento de madeira estava besuntado de graxa, uma camada fina, quase invisível, só brilhando diferente sob a luz da janela. Alguém no fundo segurou o riso com a mão na boca.
Não gritei. Peguei o pano que estava pendurado no varal do quadro, limpei a cadeira com calma, virei de costas pra turma e escrevi no quadro: "Concordância verbal". Passei os cinquenta minutos seguintes corrigindo frases erradas no caderno deles como se nada tivesse acontecido. Por dentro, o coração batia feito quem sobe escada correndo.
Quando o sinal tocou, saíram em bando, empurrando cadeira, gritando pátio afora. Ficou um menino. Magro, camisa xadrez desbotada de tanto lavar, botões todos fechados até o pescoço mesmo com calor.
— A senhora não liga não — falou baixo, olhando pro chão. — Eles não são ruim. É teste. Ano passado veio um estagiário, botaram percevejo na cadeira dele, o coitado berrou que nem doido. A senhora ficou de boa.
— Como você se chama? — perguntei, sentindo um aperto que não sabia nomear.
— Deosdete. Mas todo mundo me chama de Dedé. Moro ali na curva, duas casas depois do posto de saúde. Se a senhora precisar de lenha, de água, o que for, meu pai deixa eu ajudar.
— Obrigada, Dedé. Por enquanto tô me virando, mas vou lembrar.
Aquilo me segurou em pé nas semanas seguintes. Corrigir caderno até tarde, preparar aula na cozinha da casa que aluguei, aprender os nomes de cada família do distrito só de ouvir os sobrenomes repetidos na sala dos professores. As colegas eram gente simples, sempre trazendo broa de milho ou um saquinho de bergamota da horta de casa. Achei que ia dar tudo certo.
Até o caso do Ronivon.
Ronivon cantava. Não sabia nem explicar direito de onde vinha aquilo — um menino de doze anos, cabelo espetado, sempre com terra debaixo da unha, e quando abria a boca pra cantar as músicas de raiz que a avó dele ensinou, a sala parava. Voz grave, afinada, com um tremor que não devia existir naquela idade. Resolvi inscrever ele no festival da microrregião, que ia rolar em maio no ginásio de Vacaria.
No dia seguinte, na hora do recreio, o pai dele entrou na sala sem bater.
— A senhora tá enchendo a cabeça do meu moleque de bobagem? — soltou, parado na porta, nem bom dia deu. — Canto pra quê? Ele tem que ajudar na ordenha, no cercado, e fica de noite rodopiando na frente do espelho feito artista de televisão. Aqui não cria artista.
Respirei fundo. A voz quase falhou.
— Senta aí, por favor — apontei pra primeira carteira. — Vamos conversar com calma.
Ele não sentou. Ficou de pé, braços cruzados, o cheiro de estábulo ainda grudado na roupa. Eu tirei da bolsa a ficha de inscrição do festival, os papéis do prêmio — quinhentos reais pro primeiro lugar, valor que na Serra Fria dava pra pagar dois meses de conta de luz — e coloquei em cima da mesa, virada pra ele.
— Seu Adalberto, o senhor viu o Ronivon cantar alguma vez?
— Não preciso ver. Sei o que ele faz e o que precisa fazer.
— Eu vi. Toda semana. E essa voz não é bobagem, é dom. Tem juiz de música vindo de Porto Alegre pra esse festival. Se ele ganhar, a escola paga o transporte, a hospedagem, tudo. O senhor não gasta nada.
Ele ficou calado um instante, olhando os papéis sem tocar. Foi aí que percebi que o problema não era dinheiro nem tempo perdido. Era medo — de perder o filho pra um mundo que ele nunca pisou.
— E se ele ganhar gosto por isso e sair daqui? — falou, mais baixo agora, sem a raiva de antes. — Sozinho eu não dou conta do sítio.
Não respondi na hora. Só empurrei um pouco mais a ficha na direção dele.
— Deixa ele cantar essa vez. Depois o senhor decide o resto.
Ele assinou. Com a letra torta, apertando a caneta como quem nunca segurou uma.
Ronivon ganhou o segundo lugar em maio. Voltou pro distrito com uma medalha de fita vermelha e trezentos reais no bolso, que o pai — pra minha surpresa — deixou ele guardar inteiro numa lata de goiabada, embaixo da cama.
Passaram-se onze anos. Recebi uma carta, dessas de verdade, com selo e tudo, endereçada à escola, que a diretora nova me repassou por WhatsApp fotografada. Era do Ronivon: cantor contratado numa rádio de Bento Gonçalves, casado, um filho pequeno. Escreveu que o pai, já com os joelhos ruins, tinha ido ver ele cantar pela primeira vez num casamento em Caxias, e chorou feito criança na primeira fileira.
Guardei a foto da carta no celular. E numa tarde de sábado, sentada na varanda da casa onde moro hoje, longe da Serra Fria, tirei do armário a pasta velha com as fichas de inscrição de todos os alunos que passaram pela minha mão naqueles anos — trinta e dois nomes, trinta e duas assinaturas de pais relutantes. Separei a do seu Adalberto, escaneei, e mandei pro Ronivon junto com um bilhete curto: "Guarda isso. Foi o dia em que seu pai te deixou ser quem você é."
Não recebi resposta na hora. Três dias depois chegou um áudio no WhatsApp, ele cantando uma frase só, a voz ainda tremendo do mesmo jeito de quando tinha doze anos, e no fim uma risada, meio embargada, meio feliz.
