Dona Vera Aparecida trabalha na estação rodoviária de Serra Bonita, no interior de Minas Gerais, há vinte e seis anos, e diz que o outono é a época que ela mais sofre. Não por causa dos resfriados nem da chuva fina que não para. É que nessa época a plataforma fica mais vazia — dois ônibus por dia para a capital, cada vez menos gente descendo, cada vez mais gente indo embora para Belo Horizonte, para São Paulo, atrás de vida melhor. E ela fica, na guarita, com a garrafa térmica de café e um quadro de horários que ninguém se dá ao trabalho de atualizar.
Foi na metade de abril que ela viu o cachorro pela primeira vez.
Um labrador grande, de pelo claro, sentado na beirada da plataforma — não escondido, não pedindo comida, sentado bem no meio, de costas para o prédio da rodoviária, com os olhos fixos na estrada. Ali onde o asfalto sumia na curva, por trás da neblina. Como se a qualquer momento fosse aparecer um ônibus vindo de lá, e dele descesse alguém.
— Que cachorro bonito — falou Dona Vera em voz alta, mesmo sem ninguém por perto. O bicho virou a cabeça, olhou para ela, como quem avalia se vale a pena responder, e voltou a fitar a estrada.
Seu Osvaldo, dono da banca de jornal ali perto, onde ela comprava o jornal e o cigarro do marido, apareceu na guarita.
— Esse é o cachorro do Zé Ferreira — disse, tirando o boné e batendo nele para tirar a chuva. — Quer dizer, era dele. O Zé foi embora faz umas três semanas, para trabalhar numa obra em Cuiabá. O cunhado convenceu ele, disse que pagavam bem, uns três mil e quinhentos por mês. Não tinha com quem deixar o bicho — trouxe até a rodoviária, mandou ele ficar, entrou no ônibus para Belo Horizonte e de lá seguiu para o Mato Grosso. E foi isso.
— E não voltou?
— Nem telefonou. Gente é gente, Dona Vera. Pode ter esquecido. Pode ter arrumado outra vida por lá.
O cachorro ficava ali, dia após dia. Dona Vera começou a levar restos de comida — um pedaço de linguiça do lanche, às vezes uma lata de sardinha que comprava de propósito no mercadinho ao lado da farmácia. O labrador só comia à noite, depois que o último ônibus partia e ficava claro que naquele dia também ninguém desceria.
Alguém deu a ele o nome de Dourado, por causa da cor do pelo.
De fato, o cachorro tinha passado seis anos sem sair do lado de Zé Ferreira. Zé o achara filhote numa vala à beira da estrada, quase congelado, mal respirando, e o carregara para dentro do casaco. A mulher já tinha ido embora antes disso, não aguentou a vida apertada e os bicos, e o cachorro virou a única coisa certa no dia dele — acordava ele de manhã, esperava no portão à noite, deitava no chão da roça enquanto Zé cavava mandioca.
E foi ali, na rodoviária, que Zé disse a ele "fica" pela primeira vez — e não voltou mais.
A gerente regional da empresa de ônibus, Sônia Meireles, veio fazer inspeção em maio, de casaco comprido, cuidando para a barra não encostar no asfalto molhado.
— Dona Vera, que cachorro é esse tomando conta daqui? Isso é rodoviária, não é canil.
— Ele está esperando o dono, dona Sônia.
— O dono não deve voltar mais. Até sexta-feira esse cachorro não pode mais estar aqui, ou eu chamo o pessoal do controle de zoonoses para recolher. E pare de dar comida para ele.
Sônia foi embora rumo ao carro da empresa, salto batendo forte no chão, e Dourado a acompanhou com os olhos, imóvel como a plataforma à meia-noite.
***
Naquele sábado, desceu do ônibus vindo de Belo Horizonte uma mulher com uma única mala.
Tinha trinta e quatro anos, se chamava Cláudia Nascimento, e voltava para a cidade natal depois de onze anos morando na capital. Voltava sem nada — a agência de publicidade onde trabalhava tinha fechado no verão, o namorado de sete anos tinha ido morar com outra, e o apartamento que dividiam no bairro Buritis precisava ser desocupado até o fim do mês. Sua última noite na cidade grande ela passou na casa de uma amiga, num colchão inflável, ouvindo pela parede os vizinhos brigando por causa do controle remoto da televisão.
Sentou-se num banco molhado, colocou a mala entre as pernas e cobriu o rosto com as mãos.
Algo pesado e quente encostou nos joelhos dela.
Ela baixou as mãos. Na sua frente estava o cachorro, grande, claro, olhando de baixo para cima, como quem quer confirmar alguma coisa. Encostou o focinho na mão dela.
— De onde você saiu? — Cláudia afagou o pelo molhado. Dona Vera se aproximou, enrolada no casaco do uniforme.
— Não tem mais dono, pode-se dizer. O rapaz dele foi para o Mato Grosso e sumiu no mundo. O cachorro fica esperando. Já faz mais de um mês.
— Mais de um mês… — Cláudia passou a mão pela cabeça molhada do cachorro. — Eu também fiquei esperando. A vida inteira esperei que alguém aparecesse e dissesse que eu fazia falta para alguém. Ninguém apareceu.
Dourado se deitou perto dos pés dela, apoiou o focinho na ponta do tênis.
— A gerente está ameaçando mandar recolher até sexta — falou Dona Vera baixinho. — Não sei o que fazer com ele.
Cláudia encarou o cachorro. Ele levantou a cabeça — com uma última esperança, meio desesperada, do jeito que se olha quando não tem mais em quem contar.
— Ele vai comigo?
— Chama ele e vê.
— Dourado — disse ela, insegura. — Vem para casa?
O cachorro se levantou de um pulo. Balançou o rabo — pela primeira vez em semanas. E deu um passo na direção dela.
***
Passaram-se três anos.
Dona Vera Aparecida continua trabalhando na rodoviária de Serra Bonita, continua recebendo os dois ônibus do dia, e o quadro de horários finalmente foi atualizado por alguém. O outono ela até que passou a gostar um pouco mais.
Naquela manhã, desceu do ônibus regional uma mulher empurrando um carrinho de bebê, e ao lado dela, rente à perna, andava com toda a pose um cachorro grande e claro.
— Dona Vera! — gritou Cláudia ainda de longe. — Viemos visitar. E mostrar o passageiro novo.
Aproximou-se com o carrinho. Debaixo da capota, respirava fundo um bebê corado.
— Está dormindo?
— Foi um trabalho danado eu e o Dourado conseguirmos fazer ele dormir — riu Cláudia. — Ele virou babá. Não sai do lado do carrinho nem a pau.
Dona Vera se abaixou, coçou a orelha do cachorro.
— Então no fim você conseguiu o que queria, lindo? — perguntou baixinho.
Dourado latiu uma vez, baixinho. Depois se virou para o carrinho, farejou a roda ainda molhada de chuva, e bateu o rabo com força no chão da plataforma.
